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Baseado no trabalho disponível em http://sulmoura.blogspot.pt/.

quinta-feira, janeiro 01, 2015

dobar a vida

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1.


para dobar a vida há que partir de um tal vazio
o vácuo. o onde nada ocupe ou pouse.
o arco imaginário entre as duas palmas das mãos
erguidas ao alto na esperança da meada.

para dobar a vida há que alcançar o vazio
há que tecer o nada total, o vácuo de linhas
o vão entre o que é, o que não é e será
o vão entre a vibração anterior e aquela a eleger
a escolher — fibra e cor da vida por fazer.

para dobar a vida há que alcançar tudo
o que o vazio abrange até ao horizonte sem fim.
esvaziar. depurar. amansar. saborear
os ácidos acres  e doces. sentir o rigor
o afago o deslaço o adeus a queda.
assumir o total vácuo onde há nada
tecer as linhas até entretecer o nada
— estes o preparativos dos lavores da vida.
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Figueira da Foz. Café ‘Praça 18’. 1 Dez. / 2014.

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2.

para dobar a vida há que abrir todas as coisas
até ao ponto onde se alojam fel sangue e mel
onde se afagam versos e ausências de gestos
onde afogam gestos e bravura de versos
onde se abrigam braços no reverso de abraços.
há que abrir ao meio todos os meios
desdobrar conteúdos opacos inacessíveis
ou distantes da batida do coração.

para dobar a vida há que aproximar
os arcos do triunfo e da consolação.
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Figueira da Foz. Casa Havanesa. 13 Dez. / 2014.

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3.

dobar a vida, aprender
a ser estuário, horizonte.

dobar a vida
na meada enleada de fios
aprender que a trama é infinita
na casa esférica tecida de terra e mar.
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Figueira da Foz. ‘Tapas Bar’. 23 Nov. / 2014. // Águeda. ‘Café. Restaurante Gambrinos’. 30 Dez. / 2014.

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4.

dobar a vida é mester sinuoso


ofício ténue de alisar rugas
alisar linhas de meadas rosto mãos
domar-lhes curvaturas sinais
borbotos, pontas desfiadas, nós.
dobar a vida, sendo acção de degelo,
exige à pele resistência ou amor ao frio
habituação a esses cristais cortantes
coados, nas minúsculas gotas, pelo curto sol.
dobar a vida, sendo acção de degelo, exige
mais do que habituação: dedicação
à cultura e modo de vida do fri

só pode desfazer nós quem os saiba dar.

a todo o trabalho de desfazer compete o ofício prévio da laboração
a ter de novo lugar após a tarefa intermediária.

é que a acção cumpre-se, sempre, em 3 gestos:
desde a 1.ª criação
impulsiva,
à criação gerada
por desbaste, degelo ou pelo dobar.

dobar a vida é mester sinuoso.
ofício ténue de moveres circulares
amplificando o ponto inicial
com voltas de fios sobrepostos
— moveres a que correspondem outros
gestos circulares e paralelos
das mãos sustendo a meada-obra
a meada-criação e obra a unir
/a margem de erva, pastos, currais, de guizos de orientação, cães de guarda
do cajado tão fundo como a memória do pastor enraizado no monte
/à outra margem de luvas, camisolas
cachecóis, gorros xailes e mantinhas
/as duas margens por entre as quais corre a verdade da vida.

dobar a vida é aliar a meada
— mediação entre pastagem e aconchego —
ao novelo de tecer fibra modelo e cor.

dobar a vida é o gesto segundo
o intermédio movimento
entre meada e malha ou fio tecido.

dobar a vida
aliar meada a novelo
é habitar o vazio, o nada, o vácuo de linhas,
habitar a meada para devir novelo
para devir a promessa de teia e trama infinitas
— a casa redonda tecida por mãos aos pares
ou o aconchego,
quando o frio chega à casa de terra e mar.
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Águeda. ‘Café. Restaurante Gambrinos’. 30 Dez. / 2014.

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5.

dobar a vida é uma custosa perícia
alcançada por mãos laboriosas suaves
mãos calosas ou rugosas. firmes
mãos laboriosas ousadas insatisfeitas,
mãos esmeradas com terraços e precipícios
e corrimões escadas passeios e passadeiras
de peões.
mãos de peões e ruas pedonais.
mãos de fechaduras portas e ombreiras seguras.
mãos de embalos e colos inesperados
a meio de um filme, no restaurante, no shopping center.
mãos de resguardo e da pausa acolhida em silêncio
como paciente e silenciosa é a perícia de dobar a vida.
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Figueira da Foz. ‘Nau. Pastelaria e Restaurante’. 31 Jan. / 2015.

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6.







terça-feira, agosto 12, 2014

águas, mas doces





doce movimento aos borbotões. incontido.


flecha imprevista subindo na vertical
imune a expectativas e morais.


gotas doces encadeadas e coesas,/ solidárias na ascensão pagã.


doces bagas de múltiplas terras, raízes.

gretas transparentes no sangue fervente.

golpes certeiros no orgulho férreo e surdo.

polegadas íntimas. / impressão corporal
na memória dos sentidos e na memória dos fundos
( esse arco estirado ao suceder dos passos/ omissões e, sobretudo, medos.)

doces gotas bagas gretas golpes e polegadas.

assim as águas derramadas pela alegria.
emoção notória. resumidamente: lágrimas.
Mas doces.
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© maria toscano. inédito.
Coimbra. Restaurante ‘Jardim da Manga’. 10-11 Agosto / 2014.
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quinta-feira, julho 31, 2014

eternidade


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[ao C.A.P.Pais]
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como se aqui estivesses a dormitar no meu ombro ou mesmo descaindo a cabeça no colo por mim ajeitado como berço.
como se aqui soprasses um vento prateado, dizem os Índios do Sul ser a cor do vento e quem sou eu para questionar a palavra de Índios que dão o nome a actos e impropérios mais perversos do que seus rituais e tradições primordiais.
como se aqui pousasses esta noite, entre cidades voando; esta noite e o dia inteiro que já vai aclarando, um dia, todo um dia, meu amor 

morto pelas mãos do cérebro a apagar-se e tolher os gestos, 
modo defensivo de esconder a ceifa feita à mão 
pela sub-vida urbana acelerada da tua simpatia.

como se, meu amor, ainda tu.
como ainda eu, meu amor.
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© maria toscano. [inédito]
Coimbra, (C)Asa Verde. 30 Julho / 2014.

terça-feira, julho 29, 2014

as torradas


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enquanto não chegas viro a fatia do pão saloio já com dois dias
e espero pela função escorreita da moderna torradeira eléctrica.
se soubesse que aí estavas por perto até punha já as tuas torradas, duas,
a fazer — não muito queimadas nem muito alouradas: bem torradas, portanto.
sim, é verdade: não são horas de fazer torradas!
o cheiro enfia-se pela chaminé e vai parar ao andar de cima,
o movimento na casa, com mudança de divisão e de luzes, perturba
o ecológico e quântico sono das fiéis cadelas
e ainda lhes provoca gula, pecado sempre associado nos entes caninos
à representação manipuladora da fome
sob toda a forma de trejeitos dos olhos dos beiços das orelhas
e, mesmo, de um chiar pseudo-uivante, acertado
ao gradual deslizar na redução da distância face ao dono — no caso, à dona —
e da sempre, tão proibida quão inesperada, pata pousada no colo,
ameaça certeira do salto em duas patas, caso a intervenção da autoridade
se adie ou negligencie.
mas hoje está tudo calmo, por aqui: não te preocupes que os vizinhos
não serão despertados a meio da madrugada com ladradelas
nem uivos manhosos de cadelas mimadas como se prezam de ser os animais urbanos.
tudo isto enquanto fazia as torradas.
sim, fazia: já terminei de virar as duas fatias do pão saloio com dois dias de dureza
e a moderna torradeira eléctrica portou-se à altura.
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o que não se inventa quando o virar das páginas de um livro já não cala a saudade:
virar torradas? francamente!
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© maria toscano. [inédito]
Coimbra. (C)Asa Verde. 28 Julho / 2014.
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segunda-feira, junho 30, 2014

soneto do que só o amor pode


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são tantas as toadas e os acordes
os inúmeros e subtis timbres e tons
que chega a parecer estar-se em pleno
anfiteatro de luz fama e muita cor

que chega a desejar-se num só instante
sentir o beliscão, ter a certeza
de estar acordado no sonho que se respira
de ser vivo no como e no onde se está

são tantas as sensações incontáveis
as surpresas inconstâncias e os receios
a sobrevoar a mente como na infância

a vigiar os movimentos e a respiração
que, por medo, chega a admitir-se a recusa
do afecto redentor que só pode ser amor.
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© maria toscano.
Coimbra, (C)Asa Verde. 30 Junho / 2014.

já de abalada? ande cá! corra a cuartina de riscas e sente-se aí no mocho (no canapé? é melhor nã, nã seja que as preguetas lhe dêem cabo da roupa).
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faz calôrê nã? é tempo dele! no cântaro hai água fresquinha! e se quiser entalar alguma coisaaaa... a asada das azeitonas está chêinha, no cesto hai bobinha e papo-secos (com essa chôriça... ou com o quêjo de cabra, iiiisso!, nessa seladêra de esmalte!);
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chegue-se à mesa! - cuidado não lhe rebole a melancia para cima dos dedos do péi... assim... - entã nã se está melhórê?
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nã, nã, agora nã vai máinada! estou a guardar-me pra logo... ora na houvera de sêri! ah! já lhe dê o chêro! pois é: alhos e coentros e um nadica de vinagrê... vem aí do alguidar de barro... sim, sã nas carnes prá cêa.
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como nã sê o que o trouxe cá, forastêro, ‘stêja nesta sulmouradia como à da sua: pode ir mirando os links ("do monte"; "olivais..."; "deste planAlto..."; estas é que são...") os montes de que gostamos; pode ir vendo os posts por data ou esprêtando as nossas etiquêtas
("portados"); ou pode ir passando os olhos só pelos mais recentes.
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ah! repare lá que por estes lados nã temos o hábito de editarê todos os dias - não é um blogue-diário, 'tá a vêri?; pensámo-lo antes como sendo uma espécie de blogue-testemunho das vozes do Sul (o de cá e os Suis todos); mas temos ainda muito qu'arengar... vamos lá chegando, n'éi? devagarê, que o sol quêma!
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