Quarta-feira, Maio 22, 2013

o quarto — b)


sejamos justos: não vem mal ao mundo quando um quarto novo pulsa.
pelo contrário. o que urge, sim, no meio do caos instalado
e onde somos chamados a atear a paz a semear a revolta digna
a erguer pontes laços empedrados de ruelas e abraços
o que urge, Eugénio, já no-lo disseste, pelo que está dito.
agora, só falta cumprir, agir, fazer com que brote, onde esteja ausente
com que cresça, onde esteja tímido
com que se erga, onde esteja submisso
com que se expanda, onde esteja medroso
agora só falta tecê-lo regá-lo escorá-lo
amorosamente dar-lhe colo e, quando chegar o momento,
deixá-lo seguir o seu rumo pelos passos próprios.
tem o Amor estes requisitos.
não avisa quando se dá, para que tenhamos de ansiar por ele
não explica porque se dá, para que tenhamos de aprender com ele
não abdica de se dar, para que tenhamos de sair de nós através dele.
por isso, de agora em diante, a casa tem mais um quarto mas não suspira por ti.
porque escolhi o fogo para afagar. escolhi as combustões e os riscos reais, os esticões da temperatura num treino de atingir um lume brando que alimente e não corroa. e quando se escolhe um elemento assim, o suspiro não tem lugar pois não se pode desperdiça ar :
todo o ar de que se disponha é para atear mover acelerar ou conter a chama.
de agora em diante, a casa tem mais um quarto mas não suspira por ti.
o poema já começou. se não vieres, ele escrever-se-á com outra mão e outros gestos milagrosos do mel em chama.
o Amor, esse, está para além de todos os pormenores da transumância, de alojamento, logísticos ou, mesmo, de encaixe da bagagem no quotidiano.
de uma maneira ou de outra, todos somos instrumentos do Amor
mesmo quando não somos seus inquilinos nem vizinhos
pois, querido Eugénio, ‘é urgente o Amor’.
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maria toscano. © inédito in Poemas para uma revolução em Abril.
Coimbra, Casa Verde, 16 de Maio/ 2013.
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o quarto — e) // de pouco me importam os beijos


de pouco me importam os beijos que já te deram.
aliás, de nada me importam beijos línguas salivas nem
os braços nem todos os possíveis recantos húmidos
abertos uns, outros descobertos na incansável lida
do intenso assombro terno e insaciável.
a casa da esperança que me habita é suficientemente grande
para reservar nela um quarto — outro — para esses arquivos
registos memórias lembranças, prendas, passagens, testes
mesmo manuais ou, quem sabe até, alguns desperdícios.
de nada me interessam os gestos e as falhas do passado
feita a doce ressalva de que, por serem teus, muito me interessam
e acolho como arquivos registos
memórias lembranças, prendas, passagens, testes
mesmo manuais ou, quem sabe até, alguns desperdícios
do homem brilhante que és, pois te buscas na luz
pela luz anseias ao rasgar frinchas de ar e brilho na sombra.
de nada me importam os arquivos nem as ameaças de retorno às origens.
sou socióloga: sei bem do mito do eterno retorno, sei bem
das estratégias de recomposição familiar dos migrantes
da saudade de momentos e ninhos, confundidos,
na caminhada
árida e suada,
com a perfeição.
a perfeição é sempre o que se impõe cintilante, radicalmente novo
inesperada ruptura nos orçamentos familiares ou de estado
(não me importam os orçamento, nem os estado nem as bagagens)
a perfeição é o que move a construção, nunca o que se perdeu
pois, se se perdeu, se feneceu, se aboloreceu, se se esvaiu
não é perfeição.
assim, fica sabendo que não sofro de ciúmes desses nem de inseguranças
que não a de poder ser rugosa de mais a mão com que escrevo
poder ter oxigénio a menos a inspiração que inalo e me traz o teu cheiro
sem querer nem planear cenários perfumes destinos.
mas, mesmo destas — da ruga e da duração da vida — não tenho medos:
sejam o que forem e enquanto forem
serão, juro-te meu amor aqui inicialmente nomeado,
juro-te que serão a raiz das externalidades rosadas e líquidas
da minha voz, do meu riso e do meu estar.
de pouco me importam os beijos que já te deram.
aliás, de nada me importam beijos línguas salivas nem
os braços nem todos os possíveis recantos húmidos
abertos uns, outros descobertos na incansável lida
do terno assombro intenso e insaciável.
a tudo acolho: arquivos registos memórias lembranças
prendas passagens testes, mesmo manuais ou,
quem sabe até,
alguns desperdícios do homem brilhante que és.
por te buscares na luz, pela luz que anseias ao rasgar
frinchas de ar e brilho na sombra, de nåada me importam os arquivos.
juro-te meu amor aqui inicialmente nomeado
juro-te que há reinos inexpugnáveis no universo de que apenas assoma
a raiz dessas externalidades rosadas e líquidas
como da doçura da minha voz, do meu riso e do meu estar de mel
junto a teus sais em flor —
flor de sal e mel, ou a difícil arte de se respirar juntos.
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maria toscano. © in Poemas para uma revolução em abril.
Coimbra, Casa Verde, 22 Maio / 2013.
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Domingo, Maio 19, 2013

o quarto — d)




nem todos os meus gestos de mel te podem trazer até mim enquanto tu não escolheres a Alegria do Sol.
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aqui estou no pleno despertar do dia do mundo e
da pele que é o cosmo à escala da nossa respiração.
desejo respirar contigo: como deusa que sou, tocar no teu rio mais mágico, refrescar as mãos os gestos e, numa inspiração, darmos um passo na co-construção da Beleza  onde radica a Vida.
mas esse caminho precisa da tua inspiração da cadência da tua mão, escrevendo o verso mais conciso e simples a que alguma vez acedas: o verso branco, límpido e depurado do caos e dos horrores tristes governados pelo medo.
como deusa que sou, desejo respirar contigo.
e alçar a minha asa para te situares no deus que também és mas de que foges.
as crianças, na sua inocência, entram na nossa vida para nos ensinarem
a importância da atenção, do vagar, do colo, do crescer sempre aprendendo.
como deusa que sou respirarei contigo e poderás respirar comigo
menino deus, prestes a depor os medos, pronto para habitar o poema na pele
que é o cosmo à escala da nossa respiração.
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maria toscano. © Poemas para uma revolução em Abril.
Coimbra, 19 Maio / 2013.
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Sábado, Maio 18, 2013

o quarto — c)


.lá fora o dia acende burquinhos nas persianascarros contornam paredes da casa no regresso à suapassos empurram rodinhas de bagagem a custo fechadaa custo as cadelas rolam meio ângulo e espreguiçam-seaté encontrarem o peito do pé onde ancorar. na donaanimais ciosos do dia mas, sobretudo, fiéis pura fidelidade ao destino de quem as cuida e cria.lá fora a manhã convence os olhos exaustos
do merecido gesto de unir pestanas, pálpebras
unir joelhos esgotados da marcha de anos em luta
unir ombros pesados, cinturas justas marcadas
no nascer de dentro, aos poucos, metamorfose inesperada:
nascermos de dentro de si, de cada um, dentro de nós
pois, lá fora, a manhã anuncia o esplendor de este dia
por cada furinho da régua da persiana claro aceso
aceso o dia pela manhã que há-de trazer outra tarde
outros braços de esperança regozijo e trabalho
"amo-te muito meu amor" é uma loucura dizê-lo
mas também quem vê persianas não vê Galileu e ele está lá
mas também quem vê as horas não vê Einstein e ele está lá
como o fundo onde todo o movimento se dá e aqui está
imperturbável está no crescendo da claridade
no avanço pelo tapete da sala onde se entregam as cadelas
na maré que a manhã brilhante marca a pouco e pouco no tapete
"amo-te muito, meu amor",
pela onda de improvisos com que embalas a manhã
pela corda de ataduras e nós firmes que manobras
pela escorreita certeza da maravilha do vento e, com o vento,
a revoada de asas e odores a criar-nos radicalmente novos.
"amo-te muito, meu amor" chegado na dobra de um aviso
rebulhado no bolso entre bilhetes e notas de coisas eventuais
tornadas urgências premências reversos da opacidade
dos dias e das noites — amo-te neste tempo opaco
e no outro que há-de ser o do júbilo, pó estelar.
hoje, escamas cravadas na pele, rugosidades, imperfeições
sensibilidades mais ateadas a par de outras dispensadas
crivos de ritmo cadência esforço contenção e entrega
nos corpos onde não se vê a história humana e ela está lá
no meu corpo onde não se vê a demora dos direitos e ela está lá
no teu corpo onde não se vê a ternura dos despojos e ela está lá
hoje somos um não-sei-quê do quântico movimento
dele gostava de ouvir a tua boca, dele gostava de ler a tua gramática
dele gostava de sentir a tua saliva em dádiva
recantos do doce e do mel indispensáveis sabores
como gostosos são o sal o limão o vinho e a tua mão.
amo-te muito meu amor por seres meu sem o ser
e, sem o seres, te ires tornando muito mais meu/eu muito mais teu
nesta opacidade das janelas sem persianas por onde espreitamos
mas de onde me chegam cadências esforços contenções e o ritmo
da entrega, que o não é, para vir a emergir na gramática
na entoação na saliva em dádiva e no mel que vou coando,
docemente coando, até ao momento da entrega de favos e asas,
neste tempo de imperfeições inscritas na minha pele
onde o arrepio exulta, sábio, de metáforas e contenções
pois quem lê uma folha não vê o beijo a formar-se e ele está lá
quem abre um caderno não depara com o enlace das coxas e ele está lá
e nem imagina o virar a página como um abraço de despedida e ele está lá
pois quem olha a minha lista de compras não vê esse verso de jota de Sena
"amo-te muito, meu amor" e, contudo, ele move-se, da dupla dimensão
do espaço tempo, pelo princípio da incerteza e do caos fundador
entre o prazer das primeiras sufragistas e a dor dos abortos clandestinos
ao longo do gesto continuo mas sempre novo de navegarmos juntinhos
lentamente, amorosamente, neste tempo de opacas inveja e covardia
onde só o sal, o amor, provoca ilumina a apatia e se faz rebelião total
pelo sabor da dádiva e das mãos sábias na indignação
pois quem vê a indignação não vê a sua sabedoria de ofertar rosas e mel
e tudo isso lá está: sabedoria oferta rosas e mel — ou, abreviando,
amemo-nos muito meu amor.
maria toscano. © in Poemas para uma revolução em Abril.
Coimbra, Cas Verde, 18 Maio / 2013.
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Quinta-feira, Maio 16, 2013

o quarto — a)

a)
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de agora em diante, a casa tem mais um quarto.
as obras de remodelação acabaram.
a janela abre, em dádiva de luz e ar.
a porta fecha, no resguardo íntimo e arquejante de palavras silêncios salivas.
o chão, de madeira, cheira ao encerado à moda antiga: afagar as tábuas longas com mãos firmes e fortes, persistindo no movimento que revigora e alisa as imperfeições. à mão. cuidar do chão à mão — esse o desafio que sou.
dispensar apetrechos acessórios instrumentos de simulação do gesto, de substituição da pele. de imitação da pele.
dispensar creolinas e outros frascos ácidos engarrafados (não fluídos nem livres).
à mão.
dedo a dedo, gesto a gesto, letra a letra, num tacto onde o silêncio bane a perversão pois o majestoso estado desejante desnecessita das molduras de óbvios tiques da prosa, por atacado, da máquina da facturação.
de agora em diante, a casa tem mais um quarto mas não suspira por ti.
esta casa é misteriosa: tem de se entrar nela para se lhe sentir o cheiro. tem de se entrar nela para se ser aconchegado pelo latejar das suas formas pequenas, contidas, em pulsão e gozo insuspeitos por quem passe à roda do portão.
sendo assim uma casa latejante ganha vigor e estatura à medida que se rodam as maçanetas de cada porta, à medida que se avança no corredor e se dobra a esquina e se continua pelo corredor adiante.
todo o cuidado é pouco numa casa, assim, latejante.
mas também só se aventura numa casa destas quem for bom caminheiro.
havia na casa um quarto que não mudava há 15 anos. era um quarto acolhedor, muito conversador e meigo, virado ao Norte da cidade, com o Sol na casa de escorpião e o desejo continuado.
esse quarto deixou de pulsar cá em casa.
de modo gradual, sem grandes dramas. foi emalando o mobiliário as roupas e organizando as memórias na bagagem, até ficarem só as paredes, limpas. depois, foi só dobrar as paredes pelos vincos. guardadas ficaram no armário do quarto dos fundos. desde Novembro.
agora, na dobra dos meses, o quarto foi escolhendo onde pousar, para onde debruçar o peitoril da janela e quando iniciar a vida nova.
foi no que estivemos a trabalhar nos últimos meses, embora não o soubéssemos, pois as casas têm destas coisas: agem sobre as pessoas, fazem os seus residentes, comensais, passantes, habitantes...
foi no regresso do mar e no recobro da voz que me deparei com o novo quarto.
claro é que o podia ter expulsado ou encerrado ou queimado mesmo.
mas há muito que amo as casas e as habito intensamente, para saber que de nada vale medir forças com elas.
as casas tanto são as mais doces ou fogosas amantes como as mais sádicas e secas operadoras da dor.
escolho o fogo para afagar. escolho as combustões sérias, os riscos reais, os esticões da temperatura num treino de atingir um lume brando que alimente e não corroa.
escolho o fogo que, tal como a arte de encerar o chão, se ateia à mão.
estamos no século vinte e um, sabes?
"as fórmulas clássicas estão tão desgastadas" — concordarás.
por isso escolho a recriação do texto na carne, a incisão da palavra na pele nos lábios nos rebordos de gestos que não suspiram por ti mas só contigo poderão ser aquele poema novo: o teu. o meu.
outros gestos outros quartos outros chãos escreverão poemas meus outros novos radicais e de fogos outros, também.
de agora em diante, a casa tem mais um quarto. latejante. misterioso.
mas nele só se aventura quem for bom caminheiro.
bem sei que a cor dos meus cabelos pode confundir a quem venha.
por isso importa que fique claro: escolho o fogo ou arte, de encerar o chão, ateada à mão.
porque estamos no século vinte e um: "as fórmulas clássicas estão tão desgastadas".
de agora em diante, a casa tem mais um quarto mas não suspira por ti porque escolho o fogo para afagar. escolho as combustões e os riscos reais, os esticões da temperatura num treino de atingir um lume brando que alimente e não corroa. e quando se escolhe um elemento assim, o suspiro não tem lugar pois não se pode desperdiça ar : todo o ar de que se disponha é para atear mover acelerar ou conter a chama.
de agora em diante, a casa tem mais um quarto mas não suspira por ti.
o poema já começou. se não vieres, ele escrever-se-á com outra mão e outros gestos milagrosos do mel em chama.
fica feito o aviso.
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maria toscano © inédito. in Poemas para uma revolução em Abril,
Coimbra, Casa Verde, 16 Maio / 2013.
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Segunda-feira, Maio 13, 2013

curto abedecedário



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confesso que o abecedário se me faz curto, pouco
no que respeita à matéria da perplexidade.

vem uma mulher pelo caminho, exausta do pó das idas e vindas, subidas, curvas, carreiros e rotas com que se foi deparando ao longo do trajecto escolhido mas de cuja escolha ancestral não guarda memória nos dias.
nos dias o premente é alçar os braços, apagar incêndios de fogos mortos, afastar pedras, a uns; segurar nas pedras, a outros; amparar nas costas arqueadas algum salto, cobrir de meigo tacto lágrimas no rosto, lavar o suor, beijar as feridas — sarar ou sorver as feridas —, amparar o sangue dorido
nas iniciáticas menstruações, amansar os coices parturientes amparar o alívio do corpinho nascente dos que vêm do futuro para nos ajudar a ensinar.
nos dias o premente é este sufocante e milagroso
gesto veloz
de apoiar amainar activar actuar aceitar animar acreditar afinar
nos dias do amar em tempo veloz.
vem uma mulher pelo caminho, pedinte de água e tempo, amorosa do sol do corpo, ou seja, da risa da alegria maior e de todas as alegrias acedíveis
pelo afago a cócega o beijo a fusão roçante e o orgasmo, os orgasmos
fulminantes do veloz tempo de fogos mortos.
basta uma palavra, como, aliás, já se sabe.
basta uma palavra bombeira inteiramente vermelha e fresca
ao mesmo tempo isso: fresca e encarnada, pois a cor em questão nada tem a ver com vermes mas com a nossa condição de pele veias e sentidos nos dias.
confesso: no que respeita à perplexidade
a matéria da perplexidade, tão desejada e ansiada mas pouco acedida,
o abecedário devém pouco, faz-se curto.

pelo caminho escolhido
mas de cuja escolha ancestral não guarda memória nos dias
a mulher
— exausta do pó —
rejuvenescida pelo sufocante e milagroso gesto veloz
de apoiar amainar activar actuar aceitar animar acreditar afinar,
a mulher encontra-se dentro da palavra amar
pequenina palavra onde os seus pés, a custo,
tacteiam os rumos, as pausas e o estar no tempo veloz
sempre um tempo atroz, como, aliás, já se sabe,
mas que muitos não admitem ou cegam na mulher.

se o sufocante e milagroso gesto veloz arrasa os caminheiros
também agasta a mulher que vem pelo caminho
pedinte de água e tempo e amorosa do sol do corpo:
risa, a alegria maior e todas as alegrias esquecíveis
nos dias do premente veloz.
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maria toscano. © inédito in 'Poemas da rápida aproximação do cinquentenário.
Coimbra, Casa Verde, 12 Maio / 2013.
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Domingo, Maio 12, 2013

magnífico tempo de habitar o Amor


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e dormia no quarto das visitas para conseguir repousar sem o cheiro dele intrometido na almofada nos lençóis no edredão na colcha no cabelo nas pestanas unhas mãos nos seios no umbigo na púbis nos pés na memória e na alma. abria a roupa — tinha sempre a cama feita de lavado para casos urgentes como este não era o caso mas também servia — deslizava-se de-va-gar desde a cintura até bem ao fundo, até ficar só com os olhos de fora e a franja, na testa, a roçar os olhos arregalados da espertina do susto de ainda não ter conseguido dormir com aquele perfume intrusivo mas agora ia dar ia conseguir agora, agora sim.
inspirava. inodoro, o quarto. inspirava mais profundamente — inodoro. inspirava fundooooooooooo e a pouco e pouco o oxigénio e a respiração ou o cansaço ou a saudade eram vencidos pelo sono.
e dormia no quarto das visitas. serenada. até que ele regressava da viagem e voltavam a habitar o quarto grande a cama grande e os corações de ambos se fundiam grandes grandes grandes.
esse era um magnífico tempo de habitar o Amor.
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maria toscano. © inédito
Coimbra, 12Maio /2013.
in Poemas da rápida aproximação do cinquentenário.
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já de abalada? ande cá! corra a cuartina de riscas e sente-se aí no mocho (no canapé? é melhor nã, nã seja que as preguetas lhe dêem cabo da roupa).
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faz calôrê nã? é tempo dele! no cântaro hai água fresquinha! e se quiser entalar alguma coisaaaa... a asada das azeitonas está chêinha, no cesto hai bobinha e papo-secos (com essa chôriça... ou com o quêjo de cabra, iiiisso!, nessa seladêra de esmalte!);
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chegue-se à mesa! - cuidado não lhe rebole a melancia para cima dos dedos do péi... assim... - entã nã se está melhórê?
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nã, nã, agora nã vai máinada! estou a guardar-me pra logo... ora na houvera de sêri! ah! já lhe dê o chêro! pois é: alhos e coentros e um nadica de vinagrê... vem aí do alguidar de barro... sim, sã nas carnes prá cêa.
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como nã sê o que o trouxe cá, forastêro, ‘stêja nesta sulmouradia como à da sua: pode ir mirando os links ("do monte"; "olivais..."; "deste planAlto..."; estas é que são...") os montes de que gostamos; pode ir vendo os posts por data ou esprêtando as nossas etiquêtas
("portados"); ou pode ir passando os olhos só pelos mais recentes.
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ah! repare lá que por estes lados nã temos o hábito de editarê todos os dias - não é um blogue-diário, 'tá a vêri?; pensámo-lo antes como sendo uma espécie de blogue-testemunho das vozes do Sul (o de cá e os Suis todos); mas temos ainda muito qu'arengar... vamos lá chegando, n'éi? devagarê, que o sol quêma!
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