sejamos justos: não vem mal ao mundo quando um
quarto novo pulsa.
pelo contrário. o que urge, sim, no meio do
caos instalado
e onde somos chamados a atear a paz a semear a
revolta digna
a erguer pontes laços empedrados de ruelas e
abraços
o que urge, Eugénio, já no-lo disseste, pelo
que está dito.
agora, só falta cumprir, agir, fazer com que
brote, onde esteja ausente
com que cresça, onde esteja tímido
com que se erga, onde esteja submisso
com que se expanda, onde esteja medroso
agora só falta tecê-lo regá-lo escorá-lo
amorosamente dar-lhe colo e, quando chegar o
momento,
deixá-lo seguir o seu rumo pelos passos
próprios.
tem o Amor estes requisitos.
não avisa quando se dá, para que tenhamos de
ansiar por ele
não explica porque se dá, para que tenhamos de
aprender com ele
não abdica de se dar, para que tenhamos de
sair de nós através dele.
por isso, de agora em diante, a casa tem mais
um quarto mas não suspira por ti.
porque escolhi o fogo para afagar. escolhi as
combustões e os riscos reais, os esticões da temperatura num treino de atingir
um lume brando que alimente e não corroa. e quando se escolhe um elemento
assim, o suspiro não tem lugar pois não se pode desperdiça ar :
todo o ar de que se disponha é para atear
mover acelerar ou conter a chama.
de agora em diante, a casa tem mais um quarto
mas não suspira por ti.
o poema já começou. se não vieres, ele
escrever-se-á com outra mão e outros gestos milagrosos do mel em chama.
o Amor, esse, está para além de todos os
pormenores da transumância, de alojamento, logísticos ou, mesmo, de encaixe da
bagagem no quotidiano.
de uma maneira ou de outra, todos somos
instrumentos do Amor
mesmo quando não somos seus inquilinos nem
vizinhos
pois, querido Eugénio, ‘é urgente o Amor’.
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maria
toscano. © inédito in Poemas para uma revolução em Abril.
Coimbra,
Casa Verde, 16 de Maio/ 2013.
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