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domingo, Março 09, 2014

a estação do arco-íris e dos ninhos

"choram por mim os plátanos da rua"
Miguel Torga


falam por mim as magnólias da rua
entre o pérola e o cor-de-rosa das flores
aliadas de ramos troncos e raízes.



contidas no botão macio,
ainda não, quase flor, flores promissoras
reservam o olhar íntimo para depois:
o momento do pleno desabrochar
em tensão e luz morna até à explosão
do sol nos expectantes corpo e dorso.
a humidade do inverno alimentou as fundas águas
agora transcritas pelo poema primaveril 
em suaves arrepios de seivas a subir pela madeira.
a humidade e a temperança da dilatação do tempo.
a humidade e a força da consolidação da semente.
a humidade e a esperança da renovação da vida —
destas graças vitais, destas forças tamanhas
se fazem horário e ordem de trabalhos
para o continuado labor das árvores no inverno
sendo as mais expeditas as magnólias /por motivos vários.
confiantes na estação do arco-íris e dos ninhos
pétalas ampliam os suspiros a rotação
ao encontro do intermitente calor, do breve afago
toque fugaz do raiar soberano
até se instalar como supremo fogo.


falam por mim — por nós —  as magnólias da rua.


dizem das distintas intenções
comentam as oscilações do humor
atestam a variância de odores
mostram sentidos ocultos
à espera que a estação dos ninhos
os acolha entre os outros chilreios.


falam por nós, em pé, erguendo-se para o azul.



falam por todos deste destemido povo
moreno viajante medroso aguerrido
e doce
falam por nós de pé, decididas, firmes
vidas destemidas sobrevivendo à morte
habitando a morte com o avesso e o futuro
— pois toda a árvore sabe ser esse o segredo da vida.
falam por mim, por nós, as magnólias esparsas
pela cidade, de pé, enraizadas, firmes
dispersas, poucas, singularmente visíveis
existindo cada uma como única e parte do clã
das viventes sábias e destemidas no frio.

por nós, por mim falam, minhas irmãs /magnólias puras
distendendo palavras e canções pela cidade
distendendo-se pelas ruas em letras e pontuações
onde caminho para encaminhar-me no meu povo, vivo.
cuidadosas, calam as expressões e os juízos
apressados. em nome da compreensão
em nome do entendimento da alma inteira, /não só as ramas
dos passantes humanos ou arborizados.
as magnólias calam a risada cínica, o vil trejeitos
esse que arrasa a existência ao que é estranho
esse que ignora o sentido do desconhecido
esse que nega a dignidade ao de que nada se sabe.
ponderadas na frágil beleza ressuscitada
todos os anos — cuidadas, cuidadosas —
retêm impulsos de adulação, encómio
e o murro ácido da desacreditação do outro.
as magnólias retêm o orgulho balofo e errático
os açaimes e as algemas da sinceridade
a rédea curta da falsa amizade, castradora
o registo de queixumes, impotente prepotente
já que o reverso habita todas as coisas no avesso
e, pelo avesso, se trespassam espelhos límpidos mundos
— toda a árvore sabe que conquistar sonhos puros é isso
        já que os sonhos são a matéria mais concreta do poema
       e o poema é a matéria primordial da realidade
       onde, pelas ruas da cidade, um homem e uma mulher se amam
gemem em segredo há décadas, tão forte é esse amor
que até já poetas lhe dedicaram poemas bem mais belos
do que este que aqui entrego à estação do arco-íris e dos ninhos
onde, nas ruas da cidade as magnólias falam por nós em mim.
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maria toscano.
Coimbra. Pastelaria Tosta Rica. 25-28 Fevereiro / 2014.

terça-feira, Fevereiro 25, 2014

as Cidades e os Rios





os Rios vieram à cidade de visita, em alegre passeio.


chegaram pelo leito do rio
mestre em cursos e mapas de navegação.

pelos dedos do rio central vieram
até escolherem, cada um, o seu caminho
o seu rumo novo a desbravar por entre as casas.

as escolhas eram inéditas e múltiplas:
     nunca os rios, antes, tinham tido a opção
de alagar zonas calcetadas e empedradas
nem, mesmo, barradas de alcatrão e cimento,
zonas urbanas citadinas e manuais.
os rios conheciam muitos percursos
pois estes eram rios bem viajados:
sabiam de leitos pantanosos em pausa no estio,
ruas de areia e pedra se, na fatal secura
fundos aguados ou esverdeados
se transfiguravam em passeios pedonais entre margens.
os rios conheciam as margens curtas
e as generosas mas, também, alagadas.
os rios conheciam centros históricos
nivelados para acolherem mais águas,
baixios de herdades, encostas vãs,
ocos muros e pontões instáveis. furos
de poços disfarçados por entre os campos,
docas abandonadas na crise da dignidade operária,
marginais burguesas invadidas de espuma e sal
onde os rios às vezes marcavam encontro com o mar.
mas, ruas de pedrinhas ou cimento, inteirinhas
ruas feitas à mão, do passeio ao bueiro,
ruas urbanas interiores a apartamentos
escolas, zonas de lazer e gratidão
ah, essas eram escolhas, até então, inéditas
que os rios dessa primeira vez estrearam,
que os rios aceitaram como rito e desafio.
foi assim que os rios vieram amigáveis
de visita e em passeio alegre à cidade.
ao primeiro escoar dos seus passos
as casas deitaram olhares distraídos
acalmando o nervosismo dos próprios rios.
depois, os caudais avolumaram-se
e, as casas, inquietas, franziram o sobrolho
que é como quem diz, recolheram portadas e portas,
deram voltas a ferrolhos e fechaduras
e puseram-se, à espreita, detrás das persianas
estrategicamente descidas a três quartos.
os rios, novos nas lides urbanas
confiaram nesses sinais como acenos
e gestos de confirmação para avançarem
em segurança para todos, casas e rios.
só que o que parece nem sempre é e onde os rios
leram confiança dádiva generosidade e integração
as casas tratavam de erguer barreiras
desconfiança, ao mesmo tempo que, entre si, emitiam
mensagens de medo disfarçadas de protecção
mensagens de medo cobarde sob o nobre argumento
de estarem a ser minadas na sua supremacia
ante a realidade inteira: floral, faunal,
líquida, gasosa, térrea, enfim: natura viva.
escusado será dizer de equipas e batalhões
de especialistas mobilizados pelas casas:
— domadores do fogo e de inundações.
experts em assaltos a cofres e caixas-forte.
mergulhadores de gélidos negros e limpos mares
familiarizados com a veneta bipolar das marés.
ninjas atléticos rapidíssimos em fatos lustrados.
duetos de agentes da autoridade (qual?) à paisana
que ao passar, de tão perfeitos, passavam por camaleões.
para além de funcionários endividados a pato-bravos
munícipes gestores presidentes de Junta ou Juntas
fiéis cães-de-fila de quem manda até que mude
e se virem, fidelidade e focinhos, para o novo amo —.
escusado será dizer e continuar
a enunciar o caos instalado nas Cidades
não pela vocação de tais equipas ou batalhões
mas porque o alerta não tinha cabimento
e, como se sabe, quando se enfrenta a uma força da ordem
com um movimento de forças não agressivo
o paradoxo instala-se nas forças treinadas para a desordem:
a reacção de não reacção é inusitada
e, por regra comunicativa, bloqueia a reacção treinada.
os Rios que visitavam as Cidades
em alegre passeio de descoberta
e expansão de suas habilidades
sentaram-se, tristes — muito — pela incompreensão
de casas e suas forças treinadas para a desordem.
e, sentados pelas Praças Largos e Esquinas das ruas
os Rios desataram a chorar, desconsolados.
só então os visitados perceberam como a visita era amigável.
mas já era tarde pois a subida das lágrimas
inundava carpetes, móveis, casas e corações.
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maria toscano ©
Coimbra, Pastelaria Tosta Rica, 17 Fevereiro/ 2014.




quinta-feira, Fevereiro 20, 2014

trago a palavra



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trago a palavra.
aquela flor a sair da boca, a gemer pétalas garridas de encarnados laranjas amarelos e, claro está, azuis
pois se não fossem pétalas azuis seriam pétalas de uma flor de pé e
esta flor a sair da boca dispensa o pé porque tem asas.
corrijo, pois, o dizer:
trago a palavra: aquela flor a voar da boca, a gemer pétalas garridas e asas de imaginação.
trago a palavra, amor.
encosto-a de mansinho ao lóbulo da minha orelha, mais logo tua
— nossa —
e deixo-a assim, ficar assim a aquecer-me essa pelezinha reboluda 
e fria (hoje voltou a chuva mas ainda namorou com o frio)
e deixo-a ficar assim aninhada entre o polegar o indicador
a orelha a gola do casaco e o meu caracol 
vermelho-cereja celta ou índio:
indicador do imenso peito ardor e entrega que devoto 
aos analfabetos de flores a sair da boca
inconscientes de asas e pétalas ardentes, das palavras inocentes 
pois vivas e independentes do cisma da fogueira da tribuna e da pérfida tradução
do amor em culpa medo e traição. trago a palavra sóbria.
digo: a palavra, aquela flor a voar da boca, geme pétalas de amor
e pousa-me, amante, aninhada em teu colarinho
afagada pelo teu caracol ao de leve
e deixa-me
viva e independente do cisma da fogueira
da tribuna e da pérfida tradução do amor
em culpa
medo e
traição.
vivo na palavra.
amor.
sou a imaginação da cor e a acção do verbo
,
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© maria toscano (inédito)
Coimbra. (c)Asa Verde, 19 Fevereiro / 2014.
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já de abalada? ande cá! corra a cuartina de riscas e sente-se aí no mocho (no canapé? é melhor nã, nã seja que as preguetas lhe dêem cabo da roupa).
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faz calôrê nã? é tempo dele! no cântaro hai água fresquinha! e se quiser entalar alguma coisaaaa... a asada das azeitonas está chêinha, no cesto hai bobinha e papo-secos (com essa chôriça... ou com o quêjo de cabra, iiiisso!, nessa seladêra de esmalte!);
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chegue-se à mesa! - cuidado não lhe rebole a melancia para cima dos dedos do péi... assim... - entã nã se está melhórê?
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nã, nã, agora nã vai máinada! estou a guardar-me pra logo... ora na houvera de sêri! ah! já lhe dê o chêro! pois é: alhos e coentros e um nadica de vinagrê... vem aí do alguidar de barro... sim, sã nas carnes prá cêa.
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como nã sê o que o trouxe cá, forastêro, ‘stêja nesta sulmouradia como à da sua: pode ir mirando os links ("do monte"; "olivais..."; "deste planAlto..."; estas é que são...") os montes de que gostamos; pode ir vendo os posts por data ou esprêtando as nossas etiquêtas
("portados"); ou pode ir passando os olhos só pelos mais recentes.
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ah! repare lá que por estes lados nã temos o hábito de editarê todos os dias - não é um blogue-diário, 'tá a vêri?; pensámo-lo antes como sendo uma espécie de blogue-testemunho das vozes do Sul (o de cá e os Suis todos); mas temos ainda muito qu'arengar... vamos lá chegando, n'éi? devagarê, que o sol quêma!
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