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segunda-feira, Junho 30, 2014

soneto do que só o amor pode


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são tantas as toadas e os acordes
os inúmeros e subtis timbres e tons
que chega a parecer estar-se em pleno
anfiteatro de luz fama e muita cor

que chega a desejar-se num só instante
sentir o beliscão, ter a certeza
de estar acordado no sonho que se respira
de ser vivo no como e no onde se está

são tantas as sensações incontáveis
as surpresas inconstâncias e os receios
a sobrevoar a mente como na infância

a vigiar os movimentos e a respiração
que, por medo, chega a admitir-se a recusa
do afecto redentor que só pode ser amor.
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© maria toscano.
Coimbra, (C)Asa Verde. 30 Junho / 2014.

as árvores de onde venho.


1.

as árvores de que falo são esguias, erguidas na direcção do azul.

erigidas do voo virado a Sul as árvores de que falo são fantásticas
apesar da sua longevidade.
polpa branca encima-lhes o tronco.
rijas ramagens suportam folhagens de verdes mistos baralhados entre os secos:
vivos verdes, uns; outros, amarelados.
as árvores de que falo são viajantes de longo curso e dorso forte e longo.
as árvores de que falo são as amigas soalheiras da sesta silenciosa
ou da pausa do cansaço farto exausto.
as árvores sobre as quais escrevo estão vivas:
seivas íntimas irrigam finas veias habituadas a temporais lá de fora
anúncio do Sol consolador,
temporada de pousar no colo morno e despertar com o laivo dourado.
veias amantes do tempero instável que as águas tomam sob a forma de aguaceiros.
ora, como as árvores de que falo estão vivas
às seivas aliam-se ceras e sais / derramando cores pelo casco grosso, / a gemer agemer pela atenção
de algum dedo de criança curiosa,
de uma língua de cão farejador,
até do bico de um pardal ou periquito
que, ao esvoaçar, se detenha com  a alegria / dopegajoso e doce gotejar.
a seivas, colos, cera, sais, águas e Sol
associam-se a epiderme da terra à roda do dorso forte robusto e longo.
aliado disso tudo ainda o espaço em volta, na sua invisível composição de ar
eo pó levantado por quem passe no trilho
e a lama seca após a trovoada
e o chiar de algum triciclo ou trotineta
ou as pegadas distintas de pai e filhos
ou passos encavalitados dos apaixonados.

as árvores sobre as quais escrevo estão vivas.

as árvores de que falo são vivas.

não estranhes, pois, cachos de frutos prontos, ou ramadas de bastas flores ou botões
generosos. pacientes. pendendo.
as árvores de que falo estão tão vivas
quanto mão e lábio que te entrego em cada verso
revestindo de metáforas o quente verbo como te quero.
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Lisboa, Restaurante A Mexicana; Coimbra, café-teatro tagv. 29 e 30 Março /2014.



2.

as árvores de onde venho são antigas
e nem chegam a ser como tua mente as pensa.
afundidas, por opção, em fundos de algas / fibrosas plantas navegantes vidas do mar
as árvores de onde venho — minha raiz —
estão guardadas na serenidade do oceano na profundeza da história virginal
no lugar onde o borbulhar é silencioso onde a seda das escamas desliza ágil
a menos que algum perigo se apresente.
as árvores de onde venho por vezes parecem ser animais e, os animais, seresvegetais
—trata-se, bem entendido, de um complexo mundo
onde equilíbrio de cores e luzes compensa a escuridão
gélida e, às vezes, mesmo fossilizada.
as árvores de onde venho sim, também são fósseis
na medida em que a duração é de outro modo relatada contada e registada.
as árvores de onde venho são ancestrais musgos estendendo-se sob as costasafricana
contornando as costas europeias até guardar as americanas, as oceânicas e as polares.
as árvores de onde venho das profundezas zelam, pois, movimento e destreza
da vida revelada aqui à superfície.
guardiãs fósseis e tão antigas quanto sábias
—essas as árvores de onde venho mas me não lembro.
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Coimbra, café-teatro tagv , 30 Março / 2014.
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poema inédito de maria toscano©.

" só pode ser ..."

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só pode ser verdade.
palpita entre as pálpebras saudosas de teu lábio.
aninha-se no lado lúdico da vírgula sinuosamente desenhada pelo cabelo.
só pode ser verdade. e loucura.
por isso a madrugada zela o fechar dos olhos.
por isso a face rola e entrega o cabelo à almofada
e o caracol repousa para, amanhã meu amor, te agradar.
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© maria toscano. Coimbra, 30Junho/2014.
Foto © René Gruau.

domingo, Junho 29, 2014

enquanto falas, o silêncio.



mesmo enquanto falas há silêncio, um silêncio enorme e belo, um silêncio desejoso de tua boca na minha, de tua língua na minha para depois devir — o silêncio — marulhar de abraços asas roçando-se devagar pelas rochosas rugas dos anos disfarçados com minha alma da infância e a esperança da presente eternidade.
mesmo quando falas há asas. inquietas de tão quietas a escutar, a escutar-te e à encantada fábula por onde espreitas e te defendes, esgueirando-te pelo lado de dentro da fala.
asas quietas e trémulas no fogo brando.
há muito seco esse fogo, agora reanimado por faúlhas roxas e douradas a entrarem-me pelo ar que inspiro e a saírem-me nas palavras e lavas que aro.
silêncio trémulo de tão seguro e assombrado por tom timbre e espírito que albergas.
só mesmo as duas cadelas, sábias, para apoiar-me nesta hora milagrosa da vida.
mesmo quando falas.
mesmo quando calas.
mesmo quando olhas.
pois olhas com a fala. calas com o olhar. falas pelo silêncio.
há muito desiludido esse encantamento, agora ateado por um inefável gesto banal.
mesmo quando falas há silêncio, nasce.
um silêncio ansioso, cioso e desejoso,
o da minha boca a sonhar com os teus lábios,
o da minha língua a endereçar-se para tua face, tuas pestanas, testa e pelos finos trajectos da tua barba morena de anos, embora disfarçados com a alma da esperança — pois é tua a esperança da eternidade que intuis, aqui, por dentro do luminoso silêncio a gemer.
esse silêncio vertido em abraços há-de ser minha rosa dos ventos, ciranda e moinho do vagaroso tactear tuas rugas, do meu cioso passo por entre os nossos muitos anos aa devir juntinhos. juntinhos e baptizados no sal da trémula quieta e incansável luz: a pequenina luz bruxuleante de Sena, o sonho constante de Gedeão, o mar de Sophia, a mátria de Natália, a mãe de Eugénio, o universo de Agostinho Baptista, e a cabeça febril de Herberto confiante, sempre, nos lugares das casas e das mulheres.
podes contar com a minha alma da infância.
podes confiar na tua esperança.
mesmo enquanto falas faz-se presente
pelo silêncio
nossa estranha eternidade
neste instante da revelação.
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© maria toscano. inédito.
Coimbra, (C)Asa Verde. 29 Junho / 2014.
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"as árvores fundam o dia latejando em suas raízes".
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© maria toscano, 28Junho2014.

com a polpa dos dedos, tocando a alma, escrevo



1.

com a ponta dos dedos tocando a alma, escrevo.
escrevo com o rodopio das estrelas à volta dos caracóis,
a desenhar duas tranças misturadas com a esperança e a consolação.
escrevo sem letras, só com poesia pura
a escorrer dos gestos dos pulsos lisos
das mãos lisas sem rugas outras que as do espanto.
escrevo.
semeio, pois,
luzernas tímidas mas firmes, intermitentes
para enfrentarem melhor as alterações climáticas,
as oscilações do vento da direcção de brisa e nortada
e do tempo.
do tempo acelerado e do calmo.
do tempo do stress e do longo e
doce tempo da contemplação.
escrevo inteira rota e esvaída
em pontos traços cintilantes e luzes brancas.
amanhã, nada do que escrevo sobreviverá
à fúria do mundial ou à lava do sol.
motivos mais do que suficientes
para tomar de novo as pontas dos dedos,
a alma, as estrelas, a emoção e a esperança e,
sem rugas outras que as da consolação,
abrir de novo a voz à Poesia.
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[poema repentista] de maria toscano.
Coimbra, (C)Asa Verde, 19 Junho / 2014.
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2.

com a polpa do dedo mindinho polegar e anelar
seguro a letra inicial do verso ainda por escrever.
suporto a perna
sustento-lhe o arco e a base
e, com essas polpas suaves
resguardo o pequenino ‘a
de um verso de só mais 3 letrinhas
que, um dia, ainda hei-de escrever
quando conseguir segurá-las
com igual doçura e carinho
com a suave polpa de meus dedos
a macieza de minhas mãos adultas
e a ternura de minha alma eterna.

é só uma questão de carinho.

é tudo uma questão de ventos.

no fundo, é um assunto de ar
derivado do ar, devolvido ao ar
vindo das nuvens mornas e invisíveis
e entregue às nuvens azuis e aniladas.

sendo assunto de ar, assunto de ventos
justifica-se a extrema sensibilidade
das letrinhas à secura da pele,
ao nível de estrias rugosas, à aspereza ou acidez
das polpas dos dedos escreventes
e devotos da tarefa de casar
uma sílaba sem dor
mas de som similar
a uma letrinha ‘a’ resguardada
até encontrar o ‘m’ de seu deleite
e, enfim, fundidos, soprarem
entre os ventos do magnífico verso do amor.
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© maria toscano. Inédito.
Coimbra, Café-Teatro do TAGV, 20 Junho / 2014.
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quarta-feira, Junho 11, 2014

Ser do alentejo.




deito o olhar até longe.

pelo caminho piso calcorreio o aqui
o agora presente
sem voltar a olhar para trás.



deito o olhar até longe.

e o longe me frutifica multiplica
assim a engrandecida visão.

ah benção de nascer no longe sincero
do ser atento e em comunhão.
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© maria toscano. inédito.
Coimbra. Café Teatro TAGV. 6 Junho / 2014.
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"eu voo com as árvores " — inédito © maria toscano.



1.
são breves as horas da eternidade.

breves são os tempos de todo o sempre.

pudesse o presente ser tão fugaz.

mas, às vezes, a roda vivente troca a voltas:
enraiza-se o que é suposto voar
e, sem contar, levanta voo um ramo
seguido pela árvore possante. inteira.

breves os tempos desta eternidade,
aqui.
por isso, eu voo com as árvores
— animais, de grande porte, voadores.
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2.
de madrugada, altas horas.
antes de a passarada acordar.
antes do rebuliço de asas bicos e ar.
pela margem calada da noitinha
aconchego da margem diurna vivaça.
ao crepúsculo. em locais especiais
para ninguém vir atrás a correr/ aos berros
/ nem os avós taparem os olhos aos netos
/ enquanto — os avós — transpiram / 
atónitos e transfigurados.
— por essas horas escusas
    e nos sítios onde se pousam
    acontecem manobras clandestinas
    desde a raiz à copa volumosa.


por fim entregue ao ansiado colo
eu voo com as árvores.
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© maria toscano. inédito.
Coimbra. Café Teatro TAGV, 6 e 9 Junho/ 2014.
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segunda-feira, Maio 12, 2014

Da incandescência volátil do Olhar.


[[ após vagabundear pela enésima vez
com Maurice Merlau-Ponty. [2000]. em
O Olho e o Espírito. trad. Luís Manuel Bernardo. Lisboa, Vega-Passagens. ]]
....

Do olho.
melhor: do Olhar
desse pousar fugidio ao correr do horizonte
ao passar da linha de intermitentes luzinhas amarelas
do friso avermelhado, do outro, azul esverdeado
sob uma claraboia azulada antes do mar escuro
azul
até devir breu na noite avançada.

esta é a parte que não oferece grande resistência / não levanta polémica nem / arrisca honras nem egos.

Do Olhar.
Da Incandescência volátil do Olhar
a ortografia omite tudo,
a semântica pouco entende,
a estatística resvala na beleza sem alcançar as margens de erro,
e a fixação em imagem — pictórica, robustecida em volumes ou lisa —
às vezes, ronda-a
pois só à poesia compete, digo: cabe
o exercício de desassenhorear-se
do alheio filtro ovalado.

cabe à poesia traduzir os filtros estrangeiros
na fala, volátil vibração.

a metáfora sabe o Olhar.

a poesia expande o Olhar
na exacta medida da sua imprecisão contenção e imprevisibilidade.

uma fenomenologia metafórica do Ser —
o que, em si mesmo, é redundante
dado a fenomenologia trabalhar na revelação
no desvelar do Ser, da ontologia do Ser
indomável e imanente como inconcretizável.

— assim as metáforas.
aninhadas juntinho das composições musicais
às metáforas da fala basta a vibração.
apenas a vibração. /
a subtil vibração /
que, uma vez conseguida,
institui o inconsciente estado de amor incondicional.

digo, melhor: a vibração em amor incondicional
pois, à semelhança das composições musicais
trata-se de um subtil fruir aderir e Ser amor / incondicional.
Imanente.
Indomável.
Concretizável.

este modo de Ser e esta ontologia
superam a arquitectura
contradizem as leis dos estados e da infantil física bi-cotómica.

Da incandescência volátil do Olhar
se ergueu este poema
e, agora e aqui a lego,
desde a mais pura ontologia.

incandescência volátil do Olhar, digo,
fenomenologia,
ou melhor: a prosa da vida acedendo à pura poesia.


maria toscano ©.
Coimbra, (C)Asa Verde. 11 Maio / 2014.
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já de abalada? ande cá! corra a cuartina de riscas e sente-se aí no mocho (no canapé? é melhor nã, nã seja que as preguetas lhe dêem cabo da roupa).
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faz calôrê nã? é tempo dele! no cântaro hai água fresquinha! e se quiser entalar alguma coisaaaa... a asada das azeitonas está chêinha, no cesto hai bobinha e papo-secos (com essa chôriça... ou com o quêjo de cabra, iiiisso!, nessa seladêra de esmalte!);
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chegue-se à mesa! - cuidado não lhe rebole a melancia para cima dos dedos do péi... assim... - entã nã se está melhórê?
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nã, nã, agora nã vai máinada! estou a guardar-me pra logo... ora na houvera de sêri! ah! já lhe dê o chêro! pois é: alhos e coentros e um nadica de vinagrê... vem aí do alguidar de barro... sim, sã nas carnes prá cêa.
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como nã sê o que o trouxe cá, forastêro, ‘stêja nesta sulmouradia como à da sua: pode ir mirando os links ("do monte"; "olivais..."; "deste planAlto..."; estas é que são...") os montes de que gostamos; pode ir vendo os posts por data ou esprêtando as nossas etiquêtas
("portados"); ou pode ir passando os olhos só pelos mais recentes.
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ah! repare lá que por estes lados nã temos o hábito de editarê todos os dias - não é um blogue-diário, 'tá a vêri?; pensámo-lo antes como sendo uma espécie de blogue-testemunho das vozes do Sul (o de cá e os Suis todos); mas temos ainda muito qu'arengar... vamos lá chegando, n'éi? devagarê, que o sol quêma!
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