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quinta-feira, novembro 06, 2008

branco cigano (descrição narrativa em rima)

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aflora, ao tactear
antes de ser movimento
(mesmo antes de ser tocar)
aflora: súbito e lento
- e como assusta ao chegar
apesar de ternurento e voraz se encaminhar.
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aflora. antes de mais,
refrega os baixos tecidos
que desconhecem sinais
- os sob a pele escondidos
feitos de sangue e de sais
e, do medo, desmunidos:
aflora as veias fatais.
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refrega. e, ao aflorar
as veias as recolora
o que vem, logo, ao olhar
pois seu brilho revigora
e deixa de acatar
o ritmo, o sítio e a hora
que era suposto observar.
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revigora a rebelião
- pois aflora pelo olhar –
da imensíssima tensão
que a pele tenta calar
com um aperto de mão
com o gesto de fumar
ou o aceno de um não.
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aflora, intacto, lento
antes de ser movimento.
aflora. antes de mais
refrega as veias fatais.
recolora, assim, o olhar.
aflora e revigora
a pele em rebelião.
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então, aflora o arrepio
sem sabermos de onde vem
maltês, ocioso, arredio
insubmisso mas refém
da febre – febril do frio
que é o desejar alguém
que só nos legou o arrepio.
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aí, dá-se o desgoverno:
ao mapa, à régua razão
aflora a seiva. o nervo
aguado gera a ilusão:
do impossível nasce um trevo
- o trevo da superstição –
e o desejo faz-se. Verbo.
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só então cresce, imponente,
a incontornável ranhura
púdica, porque indecente,
infantil – de já madura –
contida, pois, irreverente;
gulosa, ciosa loucura:
pleno, o desejo é demente.
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assim – desde o tactear
anterior ao movimento,
pelo maltês arrepiar
refém do encantamento –
dá-se a abertura, o arfar:
pelo verbo imponente
conjuga-se o desejar.
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porque verbo feito carne
ciosa e inclemente,
dele advém a claridade
do branco estonteante,
essa obscura liberdade
das peles da pele nascentes:
declinação da verdade.
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Desejo, cigano andante.
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maria toscano, "branco cigano", in resguardo das Esfinges. declinações do Branco. (inédito), 2003 .

2 comentários:

vaandando disse...

EXTRAORDINÁRIO ESTE TEU POEMA...
LI_O E RELI_O COM MUITO GOSTO PELO RITMO PELA ELEGÂNCIA FORMAL PELA SENSUALIDADE, PELA PELE_________
ABRAÇO AMIGO

___________ ZÉ MARTO

Mª. de Fátima C. Toscano disse...

bons olhos os teus, o teu olhar... Fico feliz que tenhas gostado. Abraço, Irmãos (no plural porque é Irmão o abraço como tu; eh eh eh!)

já de abalada? ande cá! corra a cuartina de riscas e sente-se aí no mocho (no canapé? é melhor nã, nã seja que as preguetas lhe dêem cabo da roupa).
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faz calôrê nã? é tempo dele! no cântaro hai água fresquinha! e se quiser entalar alguma coisaaaa... a asada das azeitonas está chêinha, no cesto hai bobinha e papo-secos (com essa chôriça... ou com o quêjo de cabra, iiiisso!, nessa seladêra de esmalte!);
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chegue-se à mesa! - cuidado não lhe rebole a melancia para cima dos dedos do péi... assim... - entã nã se está melhórê?
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nã, nã, agora nã vai máinada! estou a guardar-me pra logo... ora na houvera de sêri! ah! já lhe dê o chêro! pois é: alhos e coentros e um nadica de vinagrê... vem aí do alguidar de barro... sim, sã nas carnes prá cêa.
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como nã sê o que o trouxe cá, forastêro, ‘stêja nesta sulmouradia como à da sua: pode ir mirando os links ("do monte"; "olivais..."; "deste planAlto..."; estas é que são...") os montes de que gostamos; pode ir vendo os posts por data ou esprêtando as nossas etiquêtas
("portados"); ou pode ir passando os olhos só pelos mais recentes.
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ah! repare lá que por estes lados nã temos o hábito de editarê todos os dias - não é um blogue-diário, 'tá a vêri?; pensámo-lo antes como sendo uma espécie de blogue-testemunho das vozes do Sul (o de cá e os Suis todos); mas temos ainda muito qu'arengar... vamos lá chegando, n'éi? devagarê, que o sol quêma!
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