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domingo, abril 04, 2010

poema ao amor que se demora

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sentirás a falta das montras / mudas
ladeando a calçada
que viste nascer.
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sentirás a falta dos dois declives
dois, acentuando
a imponência de um — desse — mosteiro.
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sentirás. a falta de tantas coisas
sinais minúsculos ridículos
disparatados
para outros que não amem esta cidade
como tu.
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sentirás.
falta de telhas improváveis
porcelana branca e azul
sob o telhado
sobre a montra da livraria na Sofia.
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sentirás.
falta dos garridos recentes
que ajudaste a espargir
pedra sobre pedra.
e madeira.
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sentirás.
falta do vidro antiquado
rachado partido remendado
com cartão. grosso.
cor pardacenta.
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sentirás
falta do incómodo oficial
plasmado
nas salas
de apertar
funcionários.
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sentirás.
falta do aroma a café / ao fundo do lado direito do teu caminho
para o almoço.
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sentirás.
falta do desrumo de arruma-
dores
nódoa social das des-
igualdades que sempre invocas.
lembras.
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sentirás falta de tudo isso e outro tanto
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mas, sobretudo / antes de tudo
/ e antes de mais
é a cidade que, agora, agora mesmo, já tem saudades
ao interrogar-se
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quanto à diferença que o amor terno do teu olhar
trazia às gretas, a tudo o que sufoca
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quanto ao que falta/ ou se esvai/ no seu bulício
nos seus passeios/ nos seus bons dias
e nos cinzentos.
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quanto à ausência,
exasperante,
do teu passo
tua passada
/do teu ar branco e amoroso.
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sentirás.
falta de tudo e outro tanto
mas, sobretudo
/ e antes de tudo
sou eu, cidade,
sou eu quem sente
— sem que o pressintas—
falta de ti.
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maria toscano
Coimbra, Restaurante Porta Romana, 6 março/2010
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2 comentários:

maria manuel disse...

belo poema, Maria. da vivência/ pertença a um lugar. muito bonito o final.

Maria Toscano disse...

Cara Maria Manuel: com este seu comentário ganhei 3em1
:-)
é que, para além das Palavras Atentas e Gratificantes com que me brinda, fiquei a conhecer não só o seu blog como, e sobretudo, a sua Poesia.
Bem Haja!
Cordialmente e Grata, mt

já de abalada? ande cá! corra a cuartina de riscas e sente-se aí no mocho (no canapé? é melhor nã, nã seja que as preguetas lhe dêem cabo da roupa).
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faz calôrê nã? é tempo dele! no cântaro hai água fresquinha! e se quiser entalar alguma coisaaaa... a asada das azeitonas está chêinha, no cesto hai bobinha e papo-secos (com essa chôriça... ou com o quêjo de cabra, iiiisso!, nessa seladêra de esmalte!);
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chegue-se à mesa! - cuidado não lhe rebole a melancia para cima dos dedos do péi... assim... - entã nã se está melhórê?
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nã, nã, agora nã vai máinada! estou a guardar-me pra logo... ora na houvera de sêri! ah! já lhe dê o chêro! pois é: alhos e coentros e um nadica de vinagrê... vem aí do alguidar de barro... sim, sã nas carnes prá cêa.
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como nã sê o que o trouxe cá, forastêro, ‘stêja nesta sulmouradia como à da sua: pode ir mirando os links ("do monte"; "olivais..."; "deste planAlto..."; estas é que são...") os montes de que gostamos; pode ir vendo os posts por data ou esprêtando as nossas etiquêtas
("portados"); ou pode ir passando os olhos só pelos mais recentes.
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ah! repare lá que por estes lados nã temos o hábito de editarê todos os dias - não é um blogue-diário, 'tá a vêri?; pensámo-lo antes como sendo uma espécie de blogue-testemunho das vozes do Sul (o de cá e os Suis todos); mas temos ainda muito qu'arengar... vamos lá chegando, n'éi? devagarê, que o sol quêma!
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