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quinta-feira, junho 18, 2009

Natália Correia (mt sobre "ela", sim)

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O António Vilhena, após duas passagens ocasionais por mim, em Celas, parou o carro, saíu de lá de dentro e falou. 
Entre várias coisas... pois sempre, com ele, a conversa vem aos borbotões e caoticamente (Vilhena, também te queria falar de... Ó Vilhena então e ... ?) 
— e não, não estou, com isto a querer armar-me em conversadora/conversadeira assídua do Vilhena, nem em íntima amiga ou diária dialogante; justamente por o não ser, creio (e não rejeito, com este segundo isto ehehehe, poder vir a sê-lo) é tão caótica essa conversação —
sigo:
entre várias coisas, falou do Fernando Dacosta, que vem a Coimbra na próxima 6.ª-feira e, daí, foi-se dar... "à" Natália Correia.
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Não poderei estar com, nem conhecer, Fernando Dacosta — com pena minha, mas os voos, literalmente, levam-me para outras paragens poéticas.
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Não poderei dizer do meu tão grande desconhecimento quanto grande admiração e vibração pela/com "a Fala "da" Natália Correia.
que ainda cantei por duas vezes no Boutequim — e foram belos momentos, sim; 
e
que nunca lhe consegui dizer que escrevia.
exactamente.
perguntava-me: qual pode ser o interesse "dela" numa garota como eu que nem é "de" Letras?
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hoje sorrio-me do formalismo do meu raciocínio de então, embora não me arrepelo os cabelos nem nada de parecido: agi o melhor que soube na época; e, nessa época, eu era mesmo uma "fedelha".
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mas não foi especificamente sobre estes "fait-divers" que me pus ao... ecrã.
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da conversa em torno do que distava entre a realidade e a narrativa que a Natália construía sobre si e o mundo, tão-pouco quero agora esmiuçar.
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o que me moveu a estas teclas — e há 2 dias que cá anda isto a barulhar por dentro — o que me moveu
simplesmente
foi um dos argumentos que troquei com o Vilhena
e
considero sagrado e fulcral nos baços tempos que correm.
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conta a lenda urbana que o Henri Miller, ao conhecer a Natália Correia em Lisboa, teria exclamado algo como: "e foi preciso eu vir a Lisboa para conhecer a última das Pitonisas!"
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a lenda conta; ao que parece, a vida, não.
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e o argumento é: "que importa que tenha dito, ou que não tenha dito?"
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numa visão de categorizações colete-de-forças, inquisitiva, realisto-deformativa da realidade, só isso importa. 
a factualidade ganha ânimos de essência, ensejo, sonho, meta, ideia e desejo.
a factualidade — segundo Edgar Morin no seu belíssimo livro de síntese "Amor, Poesia, Sabedoria",  a prosa, coloniza a vida, a esta vida de hiperprosa (sic).
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numa visão de categorizações constructivista ou dialéctica ou fenomenológica (sim, embora distintas, todas elas não directivas-coletes-de-força) 
o que importa não é o que se disse/disse, não é o que foi, nem o que devia, podia, seria...
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o que foi Natália Correia? não sei, nem interessará muito.
o que não foi Natália Correia? desconheço em absoluto e continuarei a desconhecê-lo.
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o que importa
sim
é compreender-se, acolher-se, abrir-se o nosso mundo a esse rasto e lastro do impossível e do inimaginável, do a-histórico, do a-coerente (porque não incoerente) e do... e do... e do que constitui a senda do poético, da poesia, pois.
da poiesis.
do acto sendo aquilo que não foi nem seria.
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se Henri Miller proferiu aquela legenda, pouco importa.
o que
definitivamente foi decisivo
sim
foi o perdurar no nosso imaginário da lenda urbana que une duas figuras tão letradas quanto eróticas, duas vozes tão sarcásticas quanto ternas e tenras.
o que foi decisivo
e
é-o
sim, decorre da brecha que essa lenda abre
ocupa
e
fermenta:
um espaço de imaginário carente, um espaço de brilho — uma pequenina luz bruxuleante (lembro o Sena) —
uma réstea
uma amplificação poiésica em pleno cinzentismo do pequenino estado novo e do parvóneo regime de então.
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a — Natália? 
c — claro que sim! 
b — a última das Pitonisas?
a— mas foi mesmo, a sério?
c — não foi, não; que o que foi não importa. 
a — ? !
b — ! ?
c — o que importa: É
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Natália É.  
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a última das Pitonisas nesta meia-tigela de caldo-verde, água-rás e fadinho tinto. 
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a última das Pitonisas no quadrante de poliemide dos yupies para a ceia plasmada frente ao plasma.
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a última das Pitonisas no semi-norte/semi-sul cardeal dos dias sem mar chorados pela Sophia.
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É.
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o que importa não é se foi, se teria sido, se poderia ter sido: 
importa
sim
que Natália
É.
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por isso falamos "dela", "a" lemos e "a" esquecemos.
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sobretudo isso: porque só se precisa esquecer o que vive mexe e É.
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a bruxuleante poiesis cravando-se
inteira
na veia prosaica do nim.
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obrigada, Natália!
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maria toscano
Coimbra, 18Junho/2009

2 comentários:

mariposa disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Maria Toscano disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
já de abalada? ande cá! corra a cuartina de riscas e sente-se aí no mocho (no canapé? é melhor nã, nã seja que as preguetas lhe dêem cabo da roupa).
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faz calôrê nã? é tempo dele! no cântaro hai água fresquinha! e se quiser entalar alguma coisaaaa... a asada das azeitonas está chêinha, no cesto hai bobinha e papo-secos (com essa chôriça... ou com o quêjo de cabra, iiiisso!, nessa seladêra de esmalte!);
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chegue-se à mesa! - cuidado não lhe rebole a melancia para cima dos dedos do péi... assim... - entã nã se está melhórê?
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nã, nã, agora nã vai máinada! estou a guardar-me pra logo... ora na houvera de sêri! ah! já lhe dê o chêro! pois é: alhos e coentros e um nadica de vinagrê... vem aí do alguidar de barro... sim, sã nas carnes prá cêa.
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como nã sê o que o trouxe cá, forastêro, ‘stêja nesta sulmouradia como à da sua: pode ir mirando os links ("do monte"; "olivais..."; "deste planAlto..."; estas é que são...") os montes de que gostamos; pode ir vendo os posts por data ou esprêtando as nossas etiquêtas
("portados"); ou pode ir passando os olhos só pelos mais recentes.
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ah! repare lá que por estes lados nã temos o hábito de editarê todos os dias - não é um blogue-diário, 'tá a vêri?; pensámo-lo antes como sendo uma espécie de blogue-testemunho das vozes do Sul (o de cá e os Suis todos); mas temos ainda muito qu'arengar... vamos lá chegando, n'éi? devagarê, que o sol quêma!
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