Central Blogs
. Licença Creative Commons
sulmoura de Maria Toscano está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em http://sulmoura.blogspot.pt/.
Mostrar mensagens com a etiqueta correios. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta correios. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, junho 13, 2012

correios — 31.

.
ainda te lembro, amor, neste dia da véspera do futuro.
nesta véspera do dia do futuro, meu amor, ainda te lembro.
neste ainda te lembro, meu amor, adio a véspera do futuro
para mesmo agora impreterivelmente aqui

sonhar o doce pestanudo a teu olhar
saborear o ângulo de veludo do teu roçar
és-me a polpa de alguma palavra aguada
alguma sílaba entreaberta aos nossos lábios.

ainda lembro, meu amor, nosso futuro
feito na véspera deste em cada neste dia
mesmo agora. impreterível amor. meu aqui.

assim agora mesmo aqui te lembro ainda
ainda agora venço a véspera prometida
ao saudar-te e sentir-te sempre junto de mim.
.
maria toscano
Coimbra, (C) Asa Verde, 12-13 junho 2012, Santo António.
.

terça-feira, junho 12, 2012

correios — 30.

.
de andorinhas e rosas trata o poema
o verso adorado vertido no mão a mão
desde a quina da porta até ao papel.
de andorinhas cegonhas e buganvílias
de rosas jasmim e até de um pinheiro
trata o risco das letras no papel virtual
trata o rasto dos lábios no nosso corpo real.
e enquanto os ninhos repousam sob a lua
levo para dentro a inquieta chama acesa
até ser hora de soltar o grito o beijo
até ter céu onde largar os papagaios.
andorinhas e buganvílias tenras
visitam as águas vertidas por nossos corpos:
entre o trinar do teu colo e o arfar do meu seio
habitamos, aninhamos o poema.
confiamos, ao sonho, o caule desta paixão.
.
maria toscano.
Coimbra, (C)asa verde, 12 junho / 2012.
.

segunda-feira, junho 11, 2012

correios — 29.

.
dá-me, agora, uma mão cheinha
uma mão inteirinha de consolo
plena, rasa de ondas pele e água
de revoadas das leves asas que guardas
as mesmas asas com que voas de madrugada.
dá-me, amor. agora. na minha mão
o dedilhar da ternura harmoniosa
o caminhar da esperança impassível
derradeira a morrer pois é mãe do tempo
colo do alento. do arrepio, o ventre.
dos passos é a cadência o compasso
é mapa de nuncas e de impossíveis
onde ninguém jamais teme o receio
e nunca mais nada se apaga nem esmorece.
dá-me, agora, na minha a tua mão
inquieta solta firme e evasiva.
vem polvilhar de comoção muros e ombros
vem partilhar teus dedos de água teus póros da pele
se chamarmos mão ao encantamento a que te entregas.
pela minha parte, amor, na palma da mão direita
a minha linha da vida continua à espera
da linha que ao darmos as mãos o nosso amor desenha.
.
maria toscano.
Coimbra, (C)asa Verde, 10-11 Junho/2012.
.







sábado, maio 19, 2012

correios — 28.

.
.
.
o teu misterioso silêncio
contém marés novas e vivas
de que ainda não sabes a corrente
embora as escutes por dentro, há muito.
herdeiro de timidez e sageza
encobertas pelo franco sorriso
o teu silêncio misterioso
é um dos requintados parapeitos
onde pairo e me debruço fascinada
pelo afinado canto e pelos versos
constantes do teu modo misterioso
que, sendo embora silencioso, me alcança.
.
.
.
maria toscano.
Coimbra. 14-16 Maio/ 2012.
.

quinta-feira, maio 10, 2012

correios — 27. ou 'as asas são a mais esvoaçante matéria do poema'


.
.
.
as asas são a mais esvoaçante matéria do poema.
nascidas nas penas ou em outras sementes de algodão
no peito quente num ombro nu / ao colo das mães
no regaço do primeiro amante proibido amor louco
nos refegos do tempo amealhando a esperança
nos requebros dos dias expandindo a alegria
corpóreas etéreas presentes vivas
as asas, meu alado amor,
são o mais esvoaçante magma do poema.
senão, repara na constância das ondas
sempre levadas e trazidas por pares de asas
repara como flores e copas de árvores
se associam aos moveres concertados
de dançarinos com passos de asas
vê bem fundo no teu olhar sereno
perscruta a lagoa da memória
escuta. sente a vaga do retorno a casa
dos teus gestos tresmalhados.
escuta. sente a marca do abandono em cada
lágrima agora resgatada.
perscruta na passagem do desejo as sucessivas âncoras aguadas
escuta. sente no teu olhar sensível
o profundo sobrevoar das asas de espuma.
meu alado amor, as asas
são, do poema, o seu modo mais esvoaçante.
por isso cada verso só se dá em poema quando se solta
enleado no feitiço das asas da poesia.
.
.
.
maria toscano.
praia da Tocha. a ver o mar 10 Maio / 2012.
.

correios — 26. ou 'tanto mais que as gaivotas se aquietam'

.
.
.
ser o constante brilho, o que irradia
sondar os pólens da claridade
tanto mais que as gaivotas se aquietam.

nos espaços onde há vazio de silêncio e redenção
tudo se encontra no pousar das cores.
o poiso das cores, a sua entrega ao areal 
invade o olhar. pelo olhar invade, candidamente, 
o espelho interior e os gestos íntimos.
a profusão das pestanas regula a claridade.
os lábios assumem a contenção,suspendem julgamentos, o ajuizar e 
a própria irritação ou a dor dos ombros quotidianos se desvanece.
nesta zona a rugir sem silêncio nem redenção
a felicidade desponta do modo mais suave.
nesta zona e em qualquer outra latitude da sombra
quase sempre basta uma fresta curta, 
a suspensão, o desencontro das regras. 
quase sempre basta repetir a esperança para cansar os medos.
cabe aos artesãos do consolo ser o que irradia, o brilho constante.
o pousar das cores no areal anuncia a rotação do cosmos e
a redenção dos desencantos felinos.
ao pousarem no areal, as cores resplandecem os pólens da
                                                                         [claridade, tanto mais que o aquietar das gaivotas
estremece amorosamente o ar
e sossega o espelho interior ou alma, meu amor.
.
maria toscano.
praia da Tocha. ‘Casa do Castelo‘, 9-10 maio/ 2012.
.








quarta-feira, maio 09, 2012

correios — 25. ou 'promessa'

.
.
.
espera-me à chegada do autocarro 
como fizeste daquela, da outra vez.
prometo levar pouca bagagem: 
só um vestidito e sapatos rasos
pois quero andar, leve, sempre a teu lado
(ponho uns de salto na mala
pró caso de para o que for preciso)
manterei o cabelo cor de cereja
para facilmente me situares,
antes, prometo descansar os olhos 
assim vejo-te logo logo te verei.
prometo dar descanso à mão
—  escreveremos os dois ao vivo em duo 
     e hei-de embalar-te ciosa,
     ciosa ternurenta e desperta.
prometo não mudar de humor de zelo
nem de amor nem de perfume
para que não apenas me intuas
e desde longe me sintas a chegar. 
prometo mais: tornar-me silenciosa
se a tua voz cantar e sibilar, 
ou ser-te a sonata a serenata
caso o teu silêncio me afine a alma e a
minha voz te leve à brisa do mar.
prometo criar, para ti, uma gazela
regar uma roseira, ceifar o pão
sulcar regueiros nas terras do Sul
pisar uvas, varejar a oliveira
ser o azeite e o vinho sangrado
com suor com tempo, honrado
a cal cintilante, o portado / a telha o sobrado e o beiral
prometo devir casa e árvore
barca lagoa mesmo mulher ou asa
prometo lavar os olhos no teu beijo
e pousar-me, a secar, em teu colo
prometo inventar um calendário / um mar e um sonho
femininos, todos
prometo oferecer-me num livro em branco
aninhado nos seios intensos nus,
e no largo ventre virgem que me guarda.
prometo, amor daquela de outra vez,
que os ventos e as tempestades da Tocha hão-de calar-se respeitosamente, sim
mas, sobretudo invejosas e estupefactas
por só tu me desviares a atenção deles.
prometo que — repara bem,
esta aposta fi-la antes de nascer —
o mar se enrolará em ondas doces,
gaivotas moluscos e algas
vão aplanar a magia das dunas
onde se firmará o paraíso
existente desde que o desejamos.
prometo, ainda, lacrimejar menos / mais comedida sorver tua tristeza
até já só restar a nostalgia
da promessa que trago neste poema.
prometo isto tudo se me esperares, amor,
à hora do autocarro, / ao sol.
até lá, promete-me tu, moreno amor:
suave farás teu ninho de amoras
cerejas abraços e outras flores.

.
.
.
maria toscano.
praia da Tocha. a ver o mar. 8 Maio / 2012.
.





terça-feira, maio 08, 2012

correios — 24.

.
.
.
é preciso ser-se muito distraído ou ter-se mal vivido
para não ver
no céu a correr ali diante
cinzento e enevoado
as vagens cruas onde se coze o amável fruto.
no céu a correr, enevoado
vão terra e água vão fogo e ar alimentados
pela velocidade, a vontade da força a unir os elementos.
o céu cinzento, ali diante
leva um trigrama inferior de torrões folhas e ramos
demorados, às vezes, entre abraços e beijos profundos e seios suados
demolhados por ribeiras e chuvas
até desaguarem nas mãos do mar.
e o céu cinzento, ali diante, leva um trigrama superior de inspirações
bolhas de humor, lambidos ais, paladares doces torsos ancas de sais
evaporando-se, a cada medo, em ar.
assim, é preciso ser-se mesmo muito distraído
ou ter-se mal vivido para não perceber
ao fundo do areal
a passagem das vagens cruas
das puras e côncavas asas
onde coze o fruto por amor.
.
.
.
maria toscano.
praia da Tocha. 7 Maio / 2012.
.

segunda-feira, maio 07, 2012

correios — 23. ou 'e agora nós'


.
.
.
e agora nós:
venho-te dizendo, fazem milénios, da candura de uma asa aberta, da lisura de uma mão estreitada noutra mão, do cálido encontro de um ombro gelado com um seio morno. venho-to dizendo e não me cansarei de o repetir, dado ser minha condição esta tarefa de falar do mesmo falando do mesmo com outros modos e de outras latitudes o que, em linguagem do século vinte e um, pode traduzir-se por: outros referentes e media.
venho-te dizendo ­— meu amor único, pois íntimo ­— venho-to desenhando no écran dos correios e nas cores de cada poema que te envio, venho-to cantando nos conhecidos fados e cantigas a invadirem o ar, venho-to desejando durante os meus votos de sonhos ou sono acordado, venho-to indicando em cada passada de 36 (confere com metro e meio de altura) curtinha mas seguríssima — desculpa a desfaçatez mas, ante um ego tão egóico, é-te difícil até admitir, quanto mais reconhecer que, como a Amália cantava, ‘há quem nasça pequenino pra cumprir um grande fado’.
venho, em suma, -TO.
nesta hora das nossas vidas, curtas mais do que breves — breve remete para abreviar, encurtar e, no nosso caso, foi-nos lançado, ou lançámo-nos, o desafio de assegurar, continuar, fecundar, semear, luzir, até pela palavra como agora tento eu louvar a vida onde pouso e por onde me estou tecendo — nestas horas das nossas curtas vidas, de novo e mais uma vez, venho, apenas, lembrar-te
pousa o coração na nascente de cada frase.
acolhe o lírio dourado que te roça a vidraça.
abre, serenamente, mão da alheia invernia.
despede-te da dor em bicos de pés para vires fazer a sesta a meu lado.
anda sempre amparado da tua profunda ternura.
ama-te eternamente, como eu te amo a ti.
.
maria toscano.
praia da Tocha, na ‘Casa do Castelo’, 7 Maio / 2012.
.

correios — 22.

.
.
.
o milagre primeiro: eis o que importa
por entre dores destroços e tramas.
e digo primeiro, amor, mas, a bem dizer
trata-se do único o fulminante
o abençoado arrepio a unir,
a vibração a unir o que sopra
lateja voga e sacia.
o primeiro milagre, meu amor único
pois a lava, ao fundir-nos, nos amplia
imensos. íntimos dentro de cada um.
do milagre primeiro, meu único amor,
não tenho ainda plena memória
ainda não recordo todos os ciclos
ainda não revejo todos os tempos
mas sinto intuo saboreio e sei
a cadência o roçar o aroma
e o tom
a que acedo por minha afinada voz.
meu único amor, de tão puro e íntimo,
crê-me: nada mais importa.
por cada vulcão partilhado
o orvalho sublime a pele do poema
ungem-nos com os óleos da consolação.
pelas minhas mãos te envio
nestas palavras
sob a pretensa forma da metáfora
o lastro da suave sábia chama. e terna.
.
.
.
maria toscano.
praia da Tocha. Café-Restaurante 'Avenida'. 6 Maio/2012.
.

domingo, maio 06, 2012

correios — 21. ou 'das anjas não reza a História'

.
.
.

sempre fui fiel ao invisível
soprar ou sibilar do canto.
sim, habitei, sempre que soube,
casas de chocolate ou algodão
bosques com áleas marcadas a pão
bailes destinados ao pé nu
fornos só acesos para reciclar megeras.
sempre acreditei nas outras vidas
paralelas em dimensões estranhas
em todas as fábulas onde os bichos se refugiam
em cada lenda onde se recolhem os heróis
nas historietas de duendes e gigantescas morais
e, sobretudo e acima de tudo, na poesia.
deveras: nunca deixei de acreditar
— a par dos assexuados anjos guias
     anjos guardas mestres e arcanos —
sempre acreditei com fundada ilusão
no degelo e na ebulição das neves.
por isso, também sempre acreditei nas anjas.
esses seres terrenos bem situados
plenos de ensejos temporadas vidas
pujantes na doçura meiga
ternos na firme coragem
fortes por serem a mudança
frágeis e criadoras do consolo
diáfanas e cruas, genuínas
sempre indomáveis.
fui sempre fiel ao invisível
canto a sibilar no íntimo
e ainda por agendar na memória da história.
aí deito e levanto, morena,
a voz de meu riso e meu pranto
a morena voz como canto. encanto.
.
.
.


maria toscano.
praia da Tocha, à beira-mar. 6 Maio/2012.
.



sábado, abril 28, 2012

correios — 20.


.
.
.
(teria)

de ter cegado.
de ter perdido as polpas dos dedos
da língua dos seios a pele
da pele a claridade
da pele o sabor
da pele a cor
da pele o som
da pele teria de ter esquecido
ah teria
de ter enrouquecido de vez
ensurdecido de vez
entrevado para sempre
morrido, teria de ter morrido
para conseguir
— a cada inspiração tua a cada passo a cada esgar a cada mão —
conseguir nunca mais enlouquecer eternamente.
.
.
.
maria toscano.
Coimbra, Café Santa Cruz. 28 Abril / 2012.
.

quinta-feira, abril 26, 2012

correios — 19.


.
.
.
venho — agora mesmo mesmo —
venho a chegar da Lua.
demorei-me imenso muito
muito mais do que contava
com tantos tantos caminhos
várias vezes hesitei e fiquei a contemplar
demorada me deixei encantada por ribeiros
brilhantes, por marés frescas,
morros desassossegados e / intangíveis matérias
linhas de horizonte sem limite nem poisos certos
fartas nuvens incabíveis na lisa prosa diária
animais frescos e exóticos com asas plumas e tranças
ciosas ancas, generosas de tempos e óleos lentos
inesperadas cinturas pujantes a ser entrega
e aves, aves planando. ou só o pousar do branco.
agora agorinha mesmo acabei de chegar da Lua.
e embora em silêncio escutas-me
e alcanças-me em vibração
e ao ritmo do andar.
a tábua, em oscilação suave
confirma véus, sela a verdade
da palavra, a claridade imprudente mas majestosa
que, insidiosamente, dás sempre que estás.
eu — que chego da Lua
onde me demorei tanto
a contemplar o incerto
poiso de fartas cinturas
as cinturas da entrega ligadas a asas e ao vento —
eu, em silêncio, reparto
este pão de encantamento
onde os astros da galáxia
nos fundiram sem contratempos.
venho — agora mesmo mesmo —
venho a chegar da Lua.
demorei-me imenso, muito
muito mais do que contava
e embora em silêncio escuto
e alcanço-te, meu coração.
guarda-me desassossegada
no encanto lento à beira-amar.
.
.
.
maria toscano.
Coimbra, Casa Verde, 24-26 abril / 2012.
.


sexta-feira, abril 20, 2012

correios — 18.


.
.
.
por onde tem andado a prudência?

perguntas-me. embora em silêncio eu escuto
alcanço bem a vibração ao andar
a suave oscilação da tábua
o esgar o olhar e o véu que eu mesma pousei sobre os teus lábios.
cuida, amor, cuida da claridade do véu:
dela depende a verdade da palavra que me darás
amanhã
assim que eu regresse para dizer-te o lugar da imprudência.
.
maria toscano.
Coimbra, casa verde, 19-20 Abril/ 2012.

.

correios — 17.


.
.
.

aqui é onde, meu amor de sempre,
digo o não no reverso do sim
digo o nunca no verso de sempre
digo o fresco no revés da febre

aqui é quando, meu amor presente,
respiro o aroma a teu gesto parado
respiro o teu espanto acordado a olhar
respiro a sílaba na voz que salvas

aqui é como a letra encontra
a forma mais perfeita de iluminar a sombra
avançando, intensa, pelo verbo latente
calam fundo nas peles.
letra e verbo. amantes
.
.
.
maria toscano.
Coimbra, casa verde, 19-20 Abril/ 2012.
.


terça-feira, abril 17, 2012

correios — 16.

.
.
.
amo-te muito, meu amor doce, meu não se sabe.
amo-te muito meu gesto grave que não se cansa.
amo-te muito meu andar sério que não se alcança
                              nem se encerra entre fronteiras, estranhos.
amo-te tanto que o próprio tempo suspende a respiração.
amo-te enquanto as asas de onde viemos pairarem, ciosas.
amo-te mais quando cerro os olhos para te tocar.
amo-te melhor quando calo o riso para te ousar.
amo-te desde a epiderme ao mais subtil contorno
                       desde o osso ao perfil ao dentro ao sangue ao fundo.
amo-te sem desespero ou medo, incabíveis na eternidade
           partilhando a menina dos meus olhos
           silvando rente ao gume em que te calas
           sorrindo de perto ao longe e de longe ao perto
amo-te, aqui que me és.
amo-te agora e sempre,
          entre os meus ombros sobre o peito no leito
amo-te encantada e, de tão exausta, serenada
            apaziguada pelo lastro do assim
            embargada no sal da pele ungida
            signo a signo vertida em cada passo teu
            vivida no dia destinado à noite
            submetida à lua da sombra temporária
            sempre que posso recolhida no teu colo
            abraçada ao teu verde quando sou ramo
            ligada a teu tronco se me enraízo.
            fundida à duração em que perduramos perdidos noutros encantos.
amo-te muito meu passo sério


amo-te muito meu gesto grave


amo-te muito, meu doce amor.
.
.
.
maria toscano.
Coimbra, Casa Verde, 16-17 Abril/ 2012.
.

correios — 15.


.
.
.
ao toque e ao sabor comum voltamos.
a tudo o mais menos real mas partilhado
tudo pouco mais presente mas perdurando
como a lágrima doce aqui e agora
a turvar-me falsas letras a devir palavras
enquanto invento, preservo e esmero a tua mão.
voltando ao estado comum, espera-nos, à chegada
o desconhecido ritmo suspenso da consolação.
.
maria toscano. ©
Coimbra, (C)asa Verde, 16-17 Abril / 2012.
.

segunda-feira, abril 16, 2012

correios — 1. a 14. (nova versão)


correios
“Gosto de saber que vives, / Mas não perdi a cabeça / Nem corro atrás do desejo;
Quem se agarra muito ao sonho / Vê o reverso da vida / Nos movimentos dum beijo.”
In Complicadíssima teia de António Botto.



1.

(para teu sossego)

portanto, meu amor eterno,
tudo isso é verdade
e tão real e verdadeiro como o ar
por onde voam
agora
estas palavras
essas imagens
de cromatismos cintilantes
comoventes como o arpejo na voz.
não tenhas medo da metáfora nem da imagem.
astutamente, como insistidamente* sabes,
grava o ângulo e o perfil dos nossos sonhos
pois partilhamos os mesmos estranhos secretos
e, partilhando, os mesmos sonhos
sabemos
que nunca fomos estranhos
segredo nosso.
portanto
e em conclusão do que falámos
sossega, amor, descansa-te e confia
pois essa loucura, se rara,
também perturba
amorosamente os viandantes de casas
amoravelmente os residentes nas nuvens.
há muito tempo — suspeitavas e agora sabes —
há muito tempo estava combinado
o nosso passeio pela rua fresca
de mãos dadas, apenas as mãos juntas,
pois as almas em chama nos agasalham
com o violeta e os azuis da claridade.
tudo o mais é íntimo. real. profundo.
retoca cada veia do meu corpo
teu também, curva da mútua pele
cada fino arco ou linha onde aprendeste
a registar e inventar como sorrir-me.
ao toque do ar comum, vibramos.
tudo o mais, real e partilhado,
tudo o mais pouco perdura como a lágrima
doce
agora aqui a turvar-me estas falsas letras
enquanto invento, preservo e esmero a tua mão.

* esta palavra não existe; com o neologismo pretende-se significar : acção ‘tida’ ‘insistentemente’ .



2.

encantada saboreio o travo novo
a bátega de brilhos em sintonia.
encantada sigo e, creio mesmo, enlouquecida
pois do nosso tempo não consta a eterna leveza.
encandeada por pouco tempo sigo
convencida do lastro e dos rumores
aquietados sob a vibração do gesto.
sigo ansiosa ante a pulsação do ombro
onde nasce o amplo peito o ágil pulso
ramo onde poiso onde me permaneço
aninhada, no avesso do dia-a-dia
— desordenadas que também as horas vão.

sigo poiso permaneço-me e te sinto:
sentir-te é a metáfora mais certa.

o desalinho dos olhos exige espaço.

o desencontro de vidas espera-nos, terno,
pois sabe que somos herdeiros do espanto
ao longo dos amealhados tempos longos.

o desabrigo dos corpos abre, em nós,
a miudinha dança requebrada enlouquecida.

encantada saboreio o travo novo
luminosa, uno-me em pulsação, em ombro
em teu peito ágil nasço-me em ramo
onde poiso me permaneço e te consolo.

enebriada com o sabor o travo novo
provo-te plenamente: mosto e sumo.
— provar-te é a metáfora mais sábia.

enebriada, fisicamente ébria
textualmente embriagada pelas pausas
— letras unidas em palavras mas, pausadas
    distanciadas até a paixão desfazer sentidos —
enebriada pela vibração, pelo teor
embriagada por dispor do verso
intenso imenso aberto em vento
provo-te plenamente: mosto e sumo.
sabor novo trago nova luz aos mundos.



3.

tudo é possível pois nada é impossível
nada limita o eterno e o infindo
curso do tempo em ínfima ínfima pausa
curso do tempo ou rio por onde cresço.
tudo e nada pois as palavras, se bem que fadas
no fundo não significam nem substituem
a verdade enraizada no ar
a saudade a memória do que arde.
nada e tudo amplíssimo verbo
conjugação em gerúndios populares:
de todo o tudo que pode e sempre o foi
de cada nada impossivelmente vazio
sondo a esfera o vértice a espada e a rosa
afino o canto de cisne de algum dia.
das palavras cuido aliso falhas
limo arestas restos sílabas raspas.
das fadas do verso branco
das palavras
até da cadência de ritmos e entoações
posso abrir mão
que é como quem diz afastar-me.
noutro leito descansar-me outro desejar-me.
tudo é possível pois só se não consente,
apenas, o ínfimo gesto que me mata:
o acatar o pousar, refém do enquadramento
o acomodar entre o bolor e a prosa.

não significam nem substituem — as palavras —
a verdade enraizada no ar
a saborosa precisão do que arde.
nada e tudo amplíssimo verbo
conjugação em gerúndios populares:
de todo o tudo que pode e sempre o foi
de cada nada impossivelmente vago
refundo o sonho alço-me em espada, lisura
desabrocho meu puro peito de jasmim e rosa
e, para que o canto nunca se desafine
nem confine ao pardo fim embaciado
posso partir, pausada, meticulosa:
pois tudo é possível e nada é impossível
pois nada limita o eterno e o infindo
curso do tempo em ínfima ínfima pausa
curso do tempo ou rio por onde cresço
livre verso onde respiro e ardo enquanto amo.



4.

em cada vitral onde pareça brilhar
permanecer um vidrinho para mim
repara bem, atenta, cuidadosa
mente a tua vista projecta
tudo aquilo que temes para ti.

em cada retábulo da vidinha
onde me imagines em cenário ideal
atenta bem, repara cuidadosa
mente a tua vista confunde
tudo aquilo que tremes e não tens.

em cada recanto perfeitinho
em que encaixes falsas vidas emparelhadas
— a que te confinas e a que me imaginas —
atenta e cuida, repara e mente:
possa, uma vez, a tua visão regular
encarar o molde, a carapaça
suspeitando a vida o dentro o que já sentes.



5.

no dia em que eu te disser que parto
o que tens de fazer é dizer-me bem sei,
já mo tinhas dito, amor, num certo verso.
no momento em que, há-de, chegar a hora
de te soltar de vez livre a voar
de te entregar de volta à casa mãe
meu amor, podes, até, respirar fundo
baixar, pouco, a cabeça rodando-a sobre ti
fixar o olhar no longe ponto distante
o mais fundo que encontrares de ti em ti,
podes estremecer — mas pouco, amor, e sem demoras
nem dramatismo alheio àqueles cujos dias
devem ser devotados e enternecidamente
dedicados às artes de esferas e esquinas.
podes, meu amor eterno e de até sempre,
podes sentir algum arrepio na nuca
uma tremente veia descendo-te em ombro
em antebraço até ao lugar anónimo
onde não ponho mais advérbios nem adjectivos
porque, venho avisando das fadas,
das palavras: não evitam a pulsação.
nesse dia na hora e no pleno momento
— queira o acaso, se nos destinámos cumpri-lo —
no preciso instante e vez de despedir-me
peço-te, amor, apenas isto te peço:
guarda as virgens águas que te hão-de invadir
abraça as águas roucas que te vão magoar
cala-as no sítio onde o branco amargo devém pranto
mesmo que nem percebas a razão do leito
húmido e quente a marejar-te as formas.


no dia em que eu te disser que vou de vez
vais dizer-me bem sei, sei bem, amor meu
já mo tinhas dito, amor, num verso certo.



6.

o meu amor,
ao contrário do outro do poema
do poeta traduzido pelo Eugénio,
não anda pela cidade nem pelas ruas.
ao contrário da que espera pelo herói
não tece a colcha da fidelidade.

o meu amor, convém dizer, não é bem meu.

seres de asas são leves, intangíveis
jamais se afeiçoam a portados murados
nem se anexam como regra dos sobrenomes.

o meu amor, para que fique claro,
nunca me deixaria só para ir passear
veranear acompanhado ou só.

seres de asas desconhecem o fastio
vencem o tédio e o cansaço dos outros
polindo a luz aos dias da baça sombra.

o meu amor, cumpre-me esclarecer,
é independente dos aromas e dos timbres
da temperatura de nota clima ou saldo
independente pois livre porque intangível
o meu amor nunca vai nem está nem falta.

ser eterno é condição para ser amor.



7.

o poema que te escrevi ainda não está
tecido por entre letras nem palavras.
vem nascendo gemendo como a geada
que, quando menos se espera já é camada/de frio e água plena
                                                                                    [sobre as coisas.

o poema que te escrevi nem sequer o sei
não o esqueço, pois, se o não recordo.
aliás, nem meu é esse poema.

é uma trama de brilhos e arrepios
um corcel sem farpas, toureio a dois
certa presença sem capote nem matador:
só dança de rosa, demente, sem prosa
só a dança colhida por teu passar.

o poema que respiro e tu respiras
(é mais segura e justa esta metáfora)
já anda tresmalhado pela cidade
e a cidade nem se sabe alucinada
a estação a praça o largo, pontes
de tão alumiados no verbo — no ar —
nem sabem do mesmo que nos cativa
num tal poema sem palavras nem letras
apenas o rio os troncos e outros animais sabem.
a estranha visão do que somos/derrama o silêncio deste amar.



8.

se bem reparei
(a imagem é fosca)
haveria, ali, um lugar
onde se sentaria
quieta
quietinha
ali, a vida aquietada.

se bem vi
(a imagem é parda)
o ângulo de abertura
é o previsto
manual de instruções
dia-a-dia.

se bem percebi
(a imagem é antiga)
zela pelo enquadramento
uma comum moldura
pura mas previsível.

— pelo menos foi o que entendi do que anexaste.

só mais uma coisa, antes de enviar este correio:
lembra-te, sempre e serenamente:

o destino é uma invenção da prosa.

o cosmos nunca pára de rodar.

a beleza recria-se no silêncio.

a verdade de uns é falsa para outros.

o tempo não existe nem avança.

as algas habitam os corpos sábios.

o coração da chama sabe voar.

a cada fala corresponde seu estar.

o verso branco não tem rima par.

a alegria é volátil e intangível.

a vida perturba mesmo o bolor.

o desejo refaz as convenções.

a ternura sobrevive ao habitual.

o cereal vive ao sol e ao ar.

o mar avança por portos e areais.

o destino é uma invenção da prosa.

o verso branco não tem rima par.

a saudade pode também ser recatada.

o lado de fora oculta a face sóbria oculta.

a linha recta só morre no infinito.

a distância é amiga da intimidade.

há tantas marés quantas artes de marear.

das missivas tem de constar o endereço certo.

por mais caminho andado há sempre passos por amar.
.
nb: para bem de tudo e todos
por cada asa por cada borboleta
respira fundo, alonga o olhar.
solta os medos. ama o sonhar.



9.

só agora trato da tontura inerente ao que vive silenciado.

poderia tê-la chamado, acolhido
antes de refrear mares e medos
poderia ter tentado detê-la
ao mesmo tempo que abrigava a incerteza
poderia mesmo tê-la calado ou esquecido
relegado para o convés das marés
sim, poderia fingir que a recusava
à tontura do que vive silenciado
braço gemendo em cada abraço silencioso.

ó meu amor livremente amoroso
guarda-me no centro do voo tangente
dessa tontura viva.



10. (soneto)

trato a tontura inerente ao vivente
com a mesma negligente paciência
com que os anos semeiam cores e rugas
ou o despudor do sangue aquece o corpo.

trato o equilíbrio da irreverência
com a imobilidade de uma pena a voar,
da gota de chuva na borda de um telheiro,
da gota do mar saliente na onda em arco.

tomo a nervura do subtil movimento
conforme o consolo se habite de memórias
e ciúme e despeito cedam lugar à esperança.

vai, à aventura de cada sentimento,
a doce criança que me equilibra na frescura
na história da livre infância alheia a ranço e prosa.




11.

o travo e a tontura desse gesto é que resguardam o direito a ser-se amado.



12.

o travo e a tontura desse gesto é que libertam, do risco, o amador.



13.

o travo e a tontura desse gesto é que anunciam o brilho aos amantes.



14.

sem o travo da tontura — sem o gesto — impermaneço e, vazia, só aconteço.
.
.
maria toscano / 2012, em Coimbra.
(Casa Verde: 28 Março; 5, 11-16 Abril; ‘jardim da manga’ Restaurante: 9 Abril; café Tropical: 16 Abril)
.
já de abalada? ande cá! corra a cuartina de riscas e sente-se aí no mocho (no canapé? é melhor nã, nã seja que as preguetas lhe dêem cabo da roupa).
.
faz calôrê nã? é tempo dele! no cântaro hai água fresquinha! e se quiser entalar alguma coisaaaa... a asada das azeitonas está chêinha, no cesto hai bobinha e papo-secos (com essa chôriça... ou com o quêjo de cabra, iiiisso!, nessa seladêra de esmalte!);
.
chegue-se à mesa! - cuidado não lhe rebole a melancia para cima dos dedos do péi... assim... - entã nã se está melhórê?
.
nã, nã, agora nã vai máinada! estou a guardar-me pra logo... ora na houvera de sêri! ah! já lhe dê o chêro! pois é: alhos e coentros e um nadica de vinagrê... vem aí do alguidar de barro... sim, sã nas carnes prá cêa.
.
como nã sê o que o trouxe cá, forastêro, ‘stêja nesta sulmouradia como à da sua: pode ir mirando os links ("do monte"; "olivais..."; "deste planAlto..."; estas é que são...") os montes de que gostamos; pode ir vendo os posts por data ou esprêtando as nossas etiquêtas
("portados"); ou pode ir passando os olhos só pelos mais recentes.
.
ah! repare lá que por estes lados nã temos o hábito de editarê todos os dias - não é um blogue-diário, 'tá a vêri?; pensámo-lo antes como sendo uma espécie de blogue-testemunho das vozes do Sul (o de cá e os Suis todos); mas temos ainda muito qu'arengar... vamos lá chegando, n'éi? devagarê, que o sol quêma!
.