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quarta-feira, junho 11, 2014

"eu voo com as árvores " — inédito © maria toscano.



1.
são breves as horas da eternidade.

breves são os tempos de todo o sempre.

pudesse o presente ser tão fugaz.

mas, às vezes, a roda vivente troca a voltas:
enraiza-se o que é suposto voar
e, sem contar, levanta voo um ramo
seguido pela árvore possante. inteira.

breves os tempos desta eternidade,
aqui.
por isso, eu voo com as árvores
— animais, de grande porte, voadores.
.

2.
de madrugada, altas horas.
antes de a passarada acordar.
antes do rebuliço de asas bicos e ar.
pela margem calada da noitinha
aconchego da margem diurna vivaça.
ao crepúsculo. em locais especiais
para ninguém vir atrás a correr/ aos berros
/ nem os avós taparem os olhos aos netos
/ enquanto — os avós — transpiram / 
atónitos e transfigurados.
— por essas horas escusas
    e nos sítios onde se pousam
    acontecem manobras clandestinas
    desde a raiz à copa volumosa.


por fim entregue ao ansiado colo
eu voo com as árvores.
.

© maria toscano. inédito.
Coimbra. Café Teatro TAGV, 6 e 9 Junho/ 2014.
.

terça-feira, julho 19, 2011

eu vou com as árvores. poema 7.

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foi contigo que aprendi as árvores.
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ainda no ovo
passeavas-me à beira do capim
ao fresco do cacimbo
quando a Selva, materna,
recolhia todos os filhos
em guinchos aos saltitos
em pios esvoaçando
em corridas silenciosas rente às folhas
em rastejantes regressos à humidade
e em braçadas quase submersas
só visíveis pelas bocarras pretas
ou os remoinhos
suspeitos
de grande porte.
.
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a Guiné foi a minha primeira terra
percebi mais tarde.
.
.
.
precisamente pela soberania das suas lianas
folhas e folhas, ramas e ramas
e ramos
e troncos
e obeliscos eternos de madeira
fóssil e imberbe
paciente tão paciente
da Guiné trouxe
no ovo
as histórias saudosas
da planura da tua infância
custosa
laboriosa e explorada
e solitária.
um menino de 11 anos
enviado para a madrugada dos kilómetros a pé
campos calcorreados quase às escuras
não fora a lua
à chuva ao frio e
ao medo
um menino de 11 anos
acabado de sair da escola
a quem a máscula voz
(do pai? da ditadura?)
proibiu a escolha do ofício
de mãos
fascinadas pela madeira.
.
barbeiro, sim.
carpinteiro, não.
.
tu, mantiveste-te fiel às árvores
aos cheiros aos veios e
aos medos
pois nasceras para desbravar caminhos.
o teu signo confirma tua liberdade
a tua, sempre firme, liberdade
de homem nascido em Janeiro
no 25 de um ano de
tempos e fardas pardos
a mesma data em que os cravos
bem mais tarde mas ainda a tempo
viriam a florir.
das armas, também,
e das mesmas armas a que te votaste
pela consciência
que o apelo da terra ensina
a consciência da justiça
da incontornável voz certeira
liberta, pois solidária.
foi assim que te achaste homem
(assim que já ninguém te podia proibir de seres tu)
decidiste
a vida das armas
com a consciência
que o apelo da terra ensina.
qualquer tropa
com excepção da PIDE.
a tua vida de armas
aproximou-te das pessoas
e fez-te ainda mais sábio
acutilante incisivo preciso num relance
um mero relance
para leres qualquer pessoa
até aos dentros.
percebi mais tarde
precisamente pela soberania
das tuas legendas
lapidares.
sim, uma legenda te bastava
para resumires esse
relance.
a vida das armas das pessoas
da tropa, com excepção da PIDE
guiou-te, de forma merecida
aos calabouços da polícia política
no tempo em que, por fim,
se desmantelou essa trave
boçal
da nossa história.
só nessa tarefa foste homem de mão:
da consciência da justiça
da incontornável voz
certeira
liberta, pois solidária.
assim foste ascendendo
mais do que nas hierarquias
baças da vidinha
foste ascendendo ao topo
da nobreza
reservada a muito poucos
vedada aos ridicula vitae do Poeta Sena.
.
entretanto
sempre que a ida ao Sul
se impunha
inadiável regresso à origem una
térrea plana
ao amplo horizonte
ias falando contando
apontando formas de folhas
anotando histórias de frutos
sublinhando estilos
de crescimento e pujança
das árvores.
.
ainda bem que a vida te trouxe para fora do Sul
(percebi-o mais tarde)
obrigando-te ao exercício da memória
partilhada
das legendas
dos contos mágicos
para não esqueceres as árvores.
nessa luta só descansaste
ao plantar em frente à tua janela
em solo urbano
supostamente destinado a flores urbanas
as plantas. as tuas árvores.
os vizinhos (que aqui se chamam condomínio)
quando falaras em cultivar o terreno
aceitaram sem hesitação
imaginando, comentávamos depois,
malmequeres e outras florições
tão preciosas que são nas jarras urbanas.
nada disso prometeras.
falaras em cultivar o terreno que estava abandonado e era um crime.
e foi com espanto
com muito espanto
por não perceberem antever nada do que ias
semeando cuidando regando olhando
feliz
foi com espanto que viram emergir
alfaces couves salsa e coentros batatas
e
as tuas árvores.
a pereira.
a tangerineira.
e o limoeiro
fértil
ainda hoje transbordando de frutos
amarelos e sumarentos como amargos.
logo o espanto ficou por aí
e não chegou a ser desacordo
pois toda a plantação era decorada com fileiras
de jardins
lírios jarros rosas
e mais flores rurais e urbanas
lindas viçosas coloridas
pois tinham por companhia mãos
que sabiam cuidar de árvores.
mas — e só percebi mais tarde —
outra foi a verdadeira razão pela qual o espanto
não se converteu mesmo em confronto:
quando tu começaste a colher e
a oferecer as colheitas.
a dádiva
reverteu o espanto em gratidão.
a dádiva desprendida
regada pela consciência
da justiça incontornável
liberta e amável, pois solidária.
eras assim. foste sempre assim.
(na gestão das Messes, repartias por todos os víveres sobrantes
enquanto os anteriores no teu cargo,
as vendiam aos colegas, para lucro pessoal.)
foste sempre assim.
cioso dos teus haveres.
amoroso com o universo.
um gato que espreitasse merecia-te o sorriso e
a frase de chamamento: bchhhh bchhhh bchhhh .
um passarito, um mero pardal
ordenava-te a paragem
extasiado
a contemplação.
amoroso com tudo
o que está fazendo girar o universo.
.
aprendi isso / muito muito mais tarde,
pai.
.
foi contigo que aprendi
as legendas.
e o humor
imprevisto (para ser humor).
.
ainda hoje (percebi-o muito mais tarde)
amo as tuas legendas.
amo as tuas armas floridas.
amo as plantações urbanas e as do Sul.
e amo
e cada vez mais
as árvores.
legaste-me as árvores de todo o mundo.
por isso, para além de tuas
são minhas
precisamente por não serem minhas
precisamente por nunca
poderem vir a ser minhas
precisamente porque
também como tu, pai,
um dia,
eu vou com as árvores.
.
.
.
maria toscano
Coimbra, 'Café Trianon'.
18 Julho/2011
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segunda-feira, julho 18, 2011

eu vou com as árvores. poema 6.

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os encontros com as árvores
são raridades
pérolas poucas escassas
pelos caminhos.
.
.
tão livres são, ágeis e esguias
tão leves ao deslizar
e acolhedoras
no peito aberto em ramos
que há gentes que passam
os passos do berço à cal
na pressa indiferente gerada por vazios.
.
.
os verdadeiros encontros
não estão / na dobra
do cansaço ou da ressaca
no aquário de luzes induzidas
à ponta da seringa
ou na deglutição.
.
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excessivos ou contidos
retidos ou extravasados
induzidos
— facturados —
os horizontes, fáceis, de grandeza
as falácias de potências ou evasão
sepultam e enterram sempre o sangue quente.
.
.
os verdadeiros encontros
são horizontais.
fazem-se no olhar de frente e lado a lado
tecem-se nos tempos de incerteza
na aceitação de que a vida não é promessa
mas caminho abertura implicação incompleta
enraizada
emergente do chão.
.
os encontros verdadeiros
horizontais
(sem as entrelinhas nem os asteriscos
de outro poema)
despontam sem avisar
a contratempo
antecipam-se muitas vezes
às previsões
dos baços destinos meteorológicos.
.
os verdadeiros encontros
exigem tronco
desprendimento
múltiplos ramos
abertos e por abrir
sorrisos gaiatos, esgares simultâneos
cascas acamadas sobre cascas
protecção de memórias e da coragem.
.
exigem? não!
pedem e contêm
pressupõem e dependem
são a variável dependente
da pausa
estremecida
no passar e no olhar
estremecidos
no face a face com o profundíssimo
altivo e simples porte
enraizado
no movimento inquieto do chão ao cosmos.
.
sei do que falo
porque levo, dentro do peito
esmerado
um ninho de árvore.
.
nunca mais serei
o opaco espelho vertical
da aquietação.
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maria toscano
em Coimbra, na Casa Verde, a 18 do Julho de 2011
.

eu vou com as árvores. poema 4.

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quando a invernia
das vidinhas vai de férias
o universo agradece
sem concessões.
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sabe-se que é dura esta verdade.
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(e não são todas?
não são todos os espelhos ameaçadores?)
.
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repousada
na via láctea
sem entrelinhas
sem asteriscos
nem duplas intenções/ ou traduções
a vida inspira
profundamente
e recomeça a obra. / a criação inteira
realinha o cosmos
em acção de graças
aos que, sinceros,
permanecem no trilho
da consolação.
.
.
quando a invernia — a prosa —
se aliena
refulge mais pleno
o lastro / os astros.
da sua poeira
libertam incansáveis limalhas.
na rotação pessoas há a aguardar
o ano inteiro
pelos instantes capitais
da contemplação.
.
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há barquinhos e gaivotas
encadeados
no modo de respirar
como ondas.
há searas oliveiras e olivais sem fronteiras
cúmplices do gesto
implícito
da comoção
da criação.
pelas corridinhas e risadas
inocentes
as crianças confiam
ao mesmo acto a pureza.
as mãos de rugas
másculas e femininas
libertam asas e asas de querer
.
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repousada no universo
reverbera a vida
sem entrelinhas
sem asteriscos
indecisões.
"Para ser, sê inteiro".
sabe-se, em verso
que esta é a única mensagem
em rotação
nos cardeais e quotidianos
lugares:
seja onde for
onde for que o universo nos una em verso.
.
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maria toscano
em Coimbra, na Casa Verde, a 17 do Julho de 2011
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domingo, julho 17, 2011

eu vou com as árvores. poema 5

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exigem as convenções
o bi
outros compromissos
intenções/ perenidade.
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sabe, a vida,
que o viver é fugaz
— tudo o que tem prazo
....agendado /sentido estrito
....está ao serviço da outra face
ou
....do sobreviver.
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maria toscano
em Coimbra, na Casa Verde, a 17 do Julho de 2011
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sábado, julho 16, 2011

eu vou com as árvores. poema 3

.

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no meu coração de andorinha

fizeste tu, ó árvore,

o ninho.

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pousaste devagar de

mansinho

com a polpa dos frutos

que guardas

entre longos ramos

elementais.

antes, roçaste a minha

gravata

como que a pedir licença

de passagem

logo voaste até à terra e esperaste

pela hora dos musgos e pirilampos.

uma vez confundidos com a geada

os teus íntimos líquidos amorosos,

refrescada

ganhaste coragem para erguer

ramos ao alto

árvore ao alto

(pode mesmo cantar-se: )

‘unidos como os dedos da mão/

havemos de chegar ao fim da estrada’)

— pode cantar-se assim teu desejo do universal.

.

.

há muito vinhas sonhando

com a viagem.

.

olhando para o ocidente

enfeitiçada

eras a fio, ondeaste com o mar.

rodando-te para sul

assobiaste / com as areias

morenas desertas mouras

durante imensos tempos

com as areias

foste amornando o teu ser

modo de ser.

com os lamentos encantadores

do leste

limaste os requebros afinaste

todas as cordas antes verdes

as cordas, agora, melodiosas.

fadadas

também as folhas te cingiram

ao fenomenal ritmo flamenco.

por fim, a índiga neve

enfrentaste / ao norte

de onde aprendeste

refracções / da luz em cores.

.

.

no meu coração de andorinha

fizeste, ó árvore,

um poiso maravilhoso para te aninhar.

.

garantidamente, pois, seguimos

eternos viajantes seres

no voo

de ser amantes.

.

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maria toscano

em Coimbra, nas ‘Galerias Santa Clara’

a 14 Julho/2011

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quinta-feira, julho 14, 2011

eu vou com as árvores. poema 2. O Homem-Árvore

.

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era uma árvore.

de passada intensa

de intenso passado.

à medida que se erguia

alongavam-se os braços

ou ramos

e as raízes, frutíferas,

abarcavam cada vez mais

terra céu o mundo.

castanha. possante.

e só.

à sua volta

desejaria flores, gentes de riso

visão todos sentidos

pequenos seres esvoaçantes

uns quase voláteis

maiores seres, outros

— fiéis felinos e audazes —

ágeis seres puros

selvagens por natureza

seres seres seres seres:

a beleza.

.

mas era uma árvore

só.

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caminhava firme

como só uma árvore o faz

como só as árvores

sabem o que é caminhar

caminhava indo e vindo

sempre constante

na intensa busca

do universo.

.

a árvore, firme e mutante

possante e leve

auspiciava as marés e as quatro estações.

.

era, aliás, com a árvore

que as estações nasciam:

à medida do seu passar

com voz altiva

anunciava o libertar das folhas

a purificação do secar ao frio

rebentos indispensáveis à ritual florição

do renascer destinado ao ócio

ao ocioso estio ao sol.

.

auspiciava as estações em todo o lado.

tanto trabalho tinha pelos hemisférios que,

às vezes,

pensava em desistir da vida de árvore

pois unia, à tarefa das estações,

pontualmente,

pastorear o recreio das marés:

de manhãzinha, cedo,

chamava-as para a costa;

à tardinha, terna

levava-as para casa.

ninguém imagina

os cansaços e o amor

que a árvore sentia.

ninguém saberá

os encantos e o amor

que a árvore gemia.

.

confesso não saber, agora,

do paradeiro dessa árvore

castanha e possante, firme e constante

caminheira como só as árvores sabem

dos caminhos.

se alguém a vir

que me diga por onde pára

para poder ir lá abraçar

a esse homem-árvore.

imponente

na intensa causa da vida

na recriação da luz no mundo.

.

abraçar essa imponente árvore. e só.

.

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maria toscano

em Coimbra, no ‘Café Infante’ (a 13) e nas ‘Galerias Santa Clara’ (a 14)

no Julho de 2011

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quarta-feira, julho 13, 2011

eu vou com as árvores. poema 1. poema do Amor

.
1.
.
amo-te por dentro deste sentimento
alegre e ácido sabor a pele
derramado em condimentos
amo-te assim sem jeito nem leito
onde pousemos juntos plenos unos
amo-te em contratempo
sem corrimão em contramão
sem alpendre nem rede
para amenizar
o furor de ambas
as asas com que me casas
à tua mão à tua boca
ao teu sorriso de pão.
amo-te fora de horas
quando as horas avisam, a luz alumia
imprevista e o amor palpita em meu colo
em meus seios acesos
no meu dorso
de ânsias doces inapeláveis
inalcansáveis. imorais, pois puras
do pleno sentir.
.
amo-te como há tanto nem tanto
.
amo-te como há muito não muito
.
amo-te como o olhar cala a lágrima
...............como o gesto resguarda a mão
...............como o trilho inverte o passo
.
amo-te sem queixas, dolorosamente atenta ao que não dizes
...........................................amorosamente intensa porque não calas
...........................................loucamente sã do obscuro ciclo das falhas
.
amo-te com a palavra por dizer
no verso travesso a escapar-me
...........................................entre o dedos
...........................................entre os veios da ungida carne que me honra
.
amo-te destemidamente aquietada pela distância
.
(nunca tal lonjura tão perto me habitara)
.
e amo-te
ainda e sobretudo
sem razão nenhuma
sem motivo nem esperança de que algum dia
também, tu, me ames
meu amor.
.
.
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2.
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pelas veias adiantadas dos tempos
caminhei imenso ao teu encontro.
deste passeio ou passagem guardo tudo
tudo quero espero anseio tudo desejo.
tudo me pertence por direito gravado
nas plantas dos pés, nas rugas das mãos
nos nós nos joelhos e desvãos nas costas
nos olhos enxutos, ciosos da água
nas generosas ancas onde te cabe sentar
nos seios perfeitos a pedirem alimento
nas límpidas coxas prontas, a latejar
tudo me é pertença eterna
da saga maravilhosa de ter sido feita mulher.
.
pelos tempos demorados nas veias
alcanço o desejo novo neste encontro.
.
morro-me de novo ao renascer
e a vida, grata, dá-me, de novo, a mão.
.
.
.
3.
.
nos meus olhos pressinto como te moves.
.
nos meus braços intuo como respiras.
.
nos gestos da palavra que te sobe à nuca
estremece o sentido o uno respirar.
.
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há sal doce antigo e saias de varina a esvoaçar dentro do meu peito.
.
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as folhas, este Outono, resistirão nas árvores
esperando que passes no caminho da voz.
.
meninos pobres arregalam os olhos negros
ao mergulhar para fora desse poema visual.
.
mulheres estafadas pelo desconsolo da espera
aprendem a nobreza desse alheio esperar.
fazem contas ao corpo do tempo humilhado e
espantam-se do desejo íntimo lhes permanecer.
.
ah e as mães viúvas de filhos jovens
e os pais doridos por esposas entrevadas
loucas acamadas devolvidas
ao leito virginal
ah e filhas e filhos chorosos nas memórias
primeiro colo, mãe
primeira mão segura, pai
ah e todos os esquecidos sem nome de cidadão
.
.
os meus braços estremecem quando te moves.
.
os meus olhos ampliam-se ao respirares.
.
a terna dança do poema vem, nos envolve
estremecemos no intenso do criar.
.
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há sal doce antigo e saias de varina a esvoaçar dentro do meu peito:
o silêncio entoa cânticos invisíveis de fulgor.
.
.
.
maria toscano.
em Coimbra, na Casa Verde, a 13 Julho/2011
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já de abalada? ande cá! corra a cuartina de riscas e sente-se aí no mocho (no canapé? é melhor nã, nã seja que as preguetas lhe dêem cabo da roupa).
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faz calôrê nã? é tempo dele! no cântaro hai água fresquinha! e se quiser entalar alguma coisaaaa... a asada das azeitonas está chêinha, no cesto hai bobinha e papo-secos (com essa chôriça... ou com o quêjo de cabra, iiiisso!, nessa seladêra de esmalte!);
.
chegue-se à mesa! - cuidado não lhe rebole a melancia para cima dos dedos do péi... assim... - entã nã se está melhórê?
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nã, nã, agora nã vai máinada! estou a guardar-me pra logo... ora na houvera de sêri! ah! já lhe dê o chêro! pois é: alhos e coentros e um nadica de vinagrê... vem aí do alguidar de barro... sim, sã nas carnes prá cêa.
.
como nã sê o que o trouxe cá, forastêro, ‘stêja nesta sulmouradia como à da sua: pode ir mirando os links ("do monte"; "olivais..."; "deste planAlto..."; estas é que são...") os montes de que gostamos; pode ir vendo os posts por data ou esprêtando as nossas etiquêtas
("portados"); ou pode ir passando os olhos só pelos mais recentes.
.
ah! repare lá que por estes lados nã temos o hábito de editarê todos os dias - não é um blogue-diário, 'tá a vêri?; pensámo-lo antes como sendo uma espécie de blogue-testemunho das vozes do Sul (o de cá e os Suis todos); mas temos ainda muito qu'arengar... vamos lá chegando, n'éi? devagarê, que o sol quêma!
.