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domingo, outubro 19, 2008

A Outra Cidade - Ritsos

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Há muitas solidões cruzadas — diz — em cima e em baixo
e outras no meio; diferentes e semelhantes, forçadas e impostas
ou como que escolhidas, como que livres — mas sempre cruzadas.
Mas, no fundo, no centro, há apenas uma solidão — diz;
uma cidade vazia, quase esférica, sem quaisquer
anúncios luminosos multicores, sem lojas, sem motocicletas,
com uma luz branca, vazia, brumosa, interrompida
por centelhas de desconhecidos semáforos. Nesta cidade
habitam desde há anos os poetas. Caminham silenciosos de braços cruzados,
recordam factos imprecisos, esquecidos, palavras, paisagens,
estes consoladores do mundo, sempre inconsolados, perseguidos
pelos cães, pelos homens, pelos vermes, pelos ratos, pelas estrelas,
perseguidos até pelas suas próprias palavras, ditas ou não ditas.
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Giánnis Ritsos. "Antologia."
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Selecção, Tradução e Prefácio de Custódio Magueijo.
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Fora de Texto, Coimbra, 1993, p. 91.
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Contradições Habituais - Ritsos

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"As palavras — disse — as palavras silenciosas, nossa única companhia;
procuramo-las, prolongamo-las, prolongam-nos — a paisagem aprofunda-se;
descobres não só os ossos, mas também belos corpos, e asas —
veste-las, elas vestem-te; volatilizas-te; partes. Encontram-nos
atrás das portas, atrás de paredes altas, bolorentas. Tu sabe-lo —
este é o único meio de comunicação. O tabique de madeira
a separar os quartos transforma-se em vidro. Vês as palavras
cair sobre a mesa nua da cave com um ruído cavo
juntamente com os insectos da noite à volta da lâmpada clandestina."
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Giánnis Ritsos. "Antologia."
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Selecção, Tradução e Prefácio de Custódio Magueijo.
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Fora de Texto, Coimbra, 1993, p. 92.
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sábado, agosto 09, 2008

A (SUA) DESCOBERTA (DE SI)

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O Giórgis está sentado no café; toma o seu café; não olha o mar.
Os camponeses vindimam as vinhas; - chegam até aqui as suas vozes.
O ferrador ferra um cavalo diante da forja.
Passou um carro carregado de tomate.
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Ele não sabe que fazer. O mar, claro, é azul,
e o sol, como sempre, sol. A ferradura,
pendurada na porta, tem seis furos vazios.
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Giánnis Ritsos. "Antologia."
Selecção, Tradução e Prefácio de Custódio Magueijo.
Fora de Texto, Coimbra, 1993, p. 34.
já de abalada? ande cá! corra a cuartina de riscas e sente-se aí no mocho (no canapé? é melhor nã, nã seja que as preguetas lhe dêem cabo da roupa).
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faz calôrê nã? é tempo dele! no cântaro hai água fresquinha! e se quiser entalar alguma coisaaaa... a asada das azeitonas está chêinha, no cesto hai bobinha e papo-secos (com essa chôriça... ou com o quêjo de cabra, iiiisso!, nessa seladêra de esmalte!);
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chegue-se à mesa! - cuidado não lhe rebole a melancia para cima dos dedos do péi... assim... - entã nã se está melhórê?
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nã, nã, agora nã vai máinada! estou a guardar-me pra logo... ora na houvera de sêri! ah! já lhe dê o chêro! pois é: alhos e coentros e um nadica de vinagrê... vem aí do alguidar de barro... sim, sã nas carnes prá cêa.
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como nã sê o que o trouxe cá, forastêro, ‘stêja nesta sulmouradia como à da sua: pode ir mirando os links ("do monte"; "olivais..."; "deste planAlto..."; estas é que são...") os montes de que gostamos; pode ir vendo os posts por data ou esprêtando as nossas etiquêtas
("portados"); ou pode ir passando os olhos só pelos mais recentes.
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ah! repare lá que por estes lados nã temos o hábito de editarê todos os dias - não é um blogue-diário, 'tá a vêri?; pensámo-lo antes como sendo uma espécie de blogue-testemunho das vozes do Sul (o de cá e os Suis todos); mas temos ainda muito qu'arengar... vamos lá chegando, n'éi? devagarê, que o sol quêma!
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