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sexta-feira, janeiro 04, 2013

“bem que me podias ter avisado...”



 .
 .
bem que me podias ter avisado
do temor e dos medos que abrigas.
vão-se habitando os teus olhos fundos
vão-se vestindo de penumbra e sombras vivas.

bem que me podias ter avisado
de tudo o que calavas e sentias.
os silêncios servem a senhores mudos
pois que aos mudos ressoam mais as profecias.

bem que me podias ter avisado
ter dito escrito cantado gravado.
os meus dedos ainda guardam teu relance

os meus braços ainda embalam a teu peito
os meus ombros ainda se arrepiam com os teus
— imaginas como seria se me tivesses avisado?
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maria toscano
Coimbra, Café Trianon, 31 Dezembro / 2012.
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sábado, dezembro 29, 2012

Amar, assim.

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Amar, assim, no limite do arco
no âmago da circulação sanguínea
no extremo incandescente do oxigénio
rés-vés ao fogo que assusta como aviva

Amar, assim: oportunidade louca
possível instante consentido
que aos ponteiros constantes dos segundos
parece ser a eternidade toda.

Amar assim, em suave combustão
em silenciosa aflição e ardente alquimia
é dádiva do tempo e do perdão

é uma estrela guia que afiança
a exigência e a verdade da passagem
por onde, quem Ama assim, devém criança.
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maria toscano. inédito. ©
Coimbra, Restaurante Allô-Pizza, 29 Dezembro/ 2012.
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"bem sabe desse estado" - soneto

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bem sabe desse estado triste triste
como só os amorosos sabem bem
como só os enamorados pelas estrelas
sentem, num arrepio, todo o bem que existe.

sabe bem da nostalgia na pálpebra curva
da curvatura nas pestanas fortes, ciosas:
só os apaixonados pela lua
cativam desses segredos silenciosos.

a própria voz estremece de comoção
a própria voz se ressente, dorida,
embora seja uma fala do coração

inspirando a esperança escondida
inspirando o ar e o tempo da consolação
— há um momento para tudo nesta vida.
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maria toscano. inédito. ©
Coimbra, Restaurante Allô-Pizza, 29 Dezembro / 2012.
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sexta-feira, dezembro 28, 2012

o menino agora nascido

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o menino só agora começou a crescer
e já as gargantas sujas o ameaçam
e já as manápulas vendidas o cercam
e já as pulsações vis o estremecem

embora só agora tenha nascido
o menino de oiro e olhos rasgados de mel
doce suspira entre as palhinhas da lenda
rosado, aninha-se, sob o bafo do bicho

boceja, preguiçoso, juntinho ao jumento.
este menino só mesmo agora nascido
vem de longe, dentro da lenda: é a História,

ele é o mote e o remate da Poesia.
todos os anos vem, de longe. até nós.
vem, gatinhando, até nós, desde o futuro.
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maria toscano
Coimbra, Pastelaria Tosta Rica, 26 Dezembro / 2012.
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quinta-feira, junho 28, 2012

regresso


"e volto à velha casa"
Ary dos Santos.
Fado do campo grande

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no regresso da viagem da saudade
no regresso da viagem da mudança
encontro à entrada, junto ao portão velhinho
um botão teu, de punho amadurecido

um botão teu de camisa branca lisa
negro, de platina antiga e enrugado
como o teu coração fundo e amado
estremece à beira da minha-nossa mão

de regresso nem sabes de que paragens
de regresso nem te digo de que andanças
encontro a minha trança e o laçarote

cor-de-rosa junto ao velho portão
como o teu coração pleno — aberto —
me aceita ternurenta, no regresso.
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maria toscano.  ©.
Coimbra. (C) Asa Verde. 27-28 Junho / 2012.
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terça-feira, junho 26, 2012

se, hoje,


1.

se hoje não me dás a mão
se hoje não me deres o braço
desconfio que os pontos cardeais
se dispersarão pelo espaço

se hoje me não deres o ombro
se o teu abraço, hoje, não me alcança
as folhas dos plátanos antecipando outonos
vão dispersar-se entre os passos estivais.

se o teu olhar, hoje vacila
se hoje não te ouvir a fala
ah meu amor, tudo o mais que eu diga

tudo o mais que eu escreva e sinta
sabe a vazio sabe a pouco
do tão do muito louco amar.
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2.

se não me alcança a tua mão
como pode a terra girar sem se perder?
como pode a lua mentir sem se descair?
como podem os pássaros, incansáveis,  cantar?
(como o sabem poetas como o Vilhena)
como pode a saliva conter-se 
e não devir maré nem rio farto?
como o vento se encaminha livre de mapas?
como ainda riem as crianças, sofregamente
ao lado de mães e avós aquietadas a estar?
como o como pode ser tão somente como
e não se converter ao quanto ao onde nem ao porquê?


se a tua mão, amor, me não alcança
tudo o que existe é baço e morre numa miragem vil.
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maria toscano. inédito. ©
Coimbra, Casa Verde, 25-26 Junho / 2012.
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sexta-feira, junho 22, 2012

"busco o lugar..."

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busco o lugar adequado
para colocar-te com carinho
( ao lado o saxofone lembra-me o beijo
  besame mucho como si fuera... la... )
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pergunto pelo sítio acertado
para pousar-te cuidadosamente
( ao longe o acordeão dobra o refrão
  !y para nada me sirve sin ti! )
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procuro o local indicado
onde possa deixar-te a repousar
( ao fundo, em dedilhado, o violino vibra
   estás perdiendo el tiempo / quizás, quizás... )
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por fim encontro-te um destino
onde alojar-te , meu querido fado
( este amor vino así desta manera
  e persistes na memória desse tango vivo).
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maria toscano.
Porto. Majestic Café. 21 junho / 2012.
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sexta-feira, junho 15, 2012

aprender

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confesso-me vencida superada
reduzida à diminuta dimensão
do minúsculo ser onde se lavra
a inesperada e gigantesca emoção.

confesso reconhecer-me: pequenina.
confesso reencontrar-me: situada.
confesso desconhecer-me: sitiada.
e ainda confesso prever-me: encarecida

mente grata e entregue ao que me habita
e, vibrando, me alonga e engrandece
até ao limite subtil do sem limites.

neste modo amante, o que nos incita
ao voo, cujo fim se desconhece,
é a eternidade, o enquanto me habites.
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maria toscano.
junho (Coimbra, 9; Nîmes, 14) / 2012.
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sábado, maio 19, 2012

mesmo o Amor insano

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o pulso já não estremece quando entra
o ombro já não se eleva na emoção
nem a sobrancelha, a esquerda ou não, dá sinal
do turbilhão de águas assim avivado

do emaranhado de véus a que obriga
e faz inventar e descobrir.
o olhar já pousa mais quieto
nos olhos e sem pestanejar.

os lábios, ah, esses continuam lábios
fogosos e de ternura sequiosos
pendentes do tal misterioso silêncio.

até o poema, como se vê, está mais sereno
e tudo isto devido ao belo e simples facto
de o Amor ser soberano, mesmo o insano.
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maria toscano.
Coimbra. Conversas da Quinta. 14-17 Maio / 2012.
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segunda-feira, maio 14, 2012

na utopia, onde



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onde ficou meu silêncio habitado
onde mora aquele lugar pleno
de passagens pouso e emoções
onde anda a quietude dos troncos

a preguiça móvel das nortadas
o moreno e inesperado ombro teu
o meu ombro moreno reinventado
o teu ombro moreno e inesperado

as asas da esperança planam
sobre as telhas e as cadelas douradas
consegues ouvir-lhe o adejar, leve?

faço uma curta pausa no calendário.
suspendo a rédea da organização
e fundo-me contigo na utopia onde.
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maria toscano.
Coimbra. Allô-Pizza, 13 Maio/ 2012.
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domingo, maio 13, 2012

"da matéria do poema ainda não se disse..."

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da matéria do poema ainda não se disse tudo.

a falar transgride-se a moldura de ar
dentro da qual a voz sem eco sobrevive
fora da qual a voz sem eco fenece.

e se não basta o que se fala o papel tão pouco
se tem prestado ao segredo continuado
de, ao acolher a inscrição perene,
resguardá-la de desvios ao sentido.

pouco importa, agora, se erros ou fugas
derivam de forma ou modo da emoção,
decorrem dos limites ou lições dos tempos
presos ao olhar de quem escuta ou lê.

pela fragilidade da voz e o encantamento do poema
é que se ergue, intacta, a matéria do poema.
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maria toscano.
praia da Tocha. a ver o mar, 12 Maio/ 2012.
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quinta-feira, maio 10, 2012

"e, assim que cheguei, vi-te logo..."


e, assim que cheguei, vi-te logo
chegavas à paragem do autocarro
dizias duas ou três coisas às mãos da bata
aos quadradinhos azul e brancos

que limpavam o banco e os vasos rotos
por certo sobre a hora da chegada.
terminaram a conversa com um aceno.
atravessaste a rua em duas passadas tuas

para te fazeres crer que era mais ampla e longe e
devagar, no muro de pedra te sentaste
comigo em oração unido: ao sol

em acto de renúncia total às trevas.
eu, viajando ainda noutra galáxia,
abençoei, grata, os interstícios da espera.
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maria toscano.
praia da Tocha. a ver o mar. 10 maio/ 2012.
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domingo, maio 06, 2012

poemas do 'inferno astral' — 2. e 3.


2.

tomo como meu o que meu me é
não abro mão de nada que me cabe
assumo acolho e acedo, pela fé
e pela esperança ao que só o Amor sabe.

guardo bem e resguardo, cuido carinhosa
com inúmeros gestos, palavras indizíveis.
a poesia que resiste oculta na prosa.
cuido as bagas e sementes impossíveis.

assim, de meus pergaminhos zelosa
posso enfrentar o inteiro dia-a-dia
e, inteira, fazer-me de espada e rosa.

de pouco valem justificações, rodeios
pois nada traz de volta a onda passada
nem acalma o fulgor de teu verso em meus seios.
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maria toscano.
praia da Tocha. a ver o oceano e na “Casa do Castelo”. 6 Maio / 2012.
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3.

do mesmo modo que tomo também liberto
meus ombros de tarefas alheias velhas
disperso desmembro e alivio
a malha seca da urdida teia.
aliás, tal gesto converge apenas
com as simples intenções do universo
ao mesmo tempo que o que gera emerge
no seu reverso também se assume o outono.
concertada com o mover incansável
e eu mesma incansável sem razão outra
do que o subtil impulso do viver
aceno com a infância ainda na mão
ao despedir-me do que deixa de ser
e, sem excepção, saúdo a todas as asas.
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maria toscano.
praia da Tocha. à beira-mar. 6 Maio / 2012.
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poemas do ‘inferno astral’ — 1.


poemas do ‘inferno astral’
1.

seja qual for a intensidade do engano
a que o embuste envolvente nos quer habituar
resguardo em meu colo o sentir soberano
o abraço intenso e o mais puro palpitar.

(e nem) imagino quantas as possibilidades
múltiplos rumos buscas e caminhos
da vida, recusando o descaminho
pois a ser é que o ser se é em liberdade.

‘com açúcar, com afecto’ diz o poema
como o quotidiano mata a utopia.
essa a distância do sonho à fantasia:

viver pendente do que o vento acena
viver carente do que foi e seria
ou ser o constante brilho, o que irradia.
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maria toscano.
praia da Tocha, “Casa do Castelo”. 6 Maio / 2012

do arco — soneto

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o arco de que falo, porque o sei,
acontece independentemente da hora.

o arco de que falo, porque o sinto,
é ele que institui as horas.

para ser mais clara-e-evidente
direi que o arco, múltiplo incolor,
em si contém as virtualidades todas
em si detém o medo, a dor
e a facilidade por acomodação.


senhor da cor e da eternidade
por brincadeira, até inventa o tempo

para que nós, fundidos na eternidade,
perduremos, juntos, também na posteridade.

este o arco que guarda a meu coração.
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maria toscano.
praia da Tocha. 5 Maio/ 2012.
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sexta-feira, maio 04, 2012

"conheço este aroma" — soneto


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conheço este aroma deste odor
e a cadência volátil como voa
conheço o arrepio o suspiro a solidão
o encrespar dos dedos pelo poema

a metáfora do beijo que morreu
o rasgar das vestes em frente ao espelho
indeciso com qual o vestido que te gabe.
conheço o aroma desta dor

e a urgência ágil como voa
para melhor fugir e mais depressa deslizar
entre o futuro e o posterior odor de dor.

conheço reconheço e desgosto.
palavras de sombra nunca rimam com penumbra
como poderiam aceder, sequer, ao amor?
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maria toscano.
Coimbra, Casa Verde, 4 Maio / 2012.
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terça-feira, maio 01, 2012

escrevo-te, Florbela ao Sul — soneto.

Escreve-Me… — O Livro D'Ele, Poemas / Florbela Espanca
"Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas"
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escrevo-te, ainda que só mesmo uma palavra
porque o poema não advém do ajuntamento
de letras em sílabas e em nomes a nomear.
escrevo-te com o mesmo sangue moreno

desde o mesmo monte moreno a ver a seara
desde o centro da oliveira a gemer ouro
desde o cimo da azinheira a guardar o sol
— te escrevo paciente e irrequieta
agachada entre papel e lápis viciosos.

por entre o restolho e os girassóis ressequidos
distingo o verde do fogo nos amarelos.
ao fundo, entre a linha do horizonte

destrinço o teu ombro e o teu abraço
fidelizados no acto da escrivação:
minha palavra, cautelosa, te dá a mão.
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maria toscano.
Coimbra, (C)asa Verde, 1 Maio / 2012.
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(derivação de soneto de Florbela Espanca.)
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segunda-feira, abril 30, 2012

"urge o tempo das ondas pesadas..." — soneto.


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urge o tempo das ondas pesadas na areia
na sola das botas colada e imune ao vento.
urge o vendaval traçado desde o norte
selecto norte venerando, certeiro, o sul.

urgem os matizes e desdobramentos pastel
do violeta cimeiro mas ténue no por-do-sol.
urge esse afago do sol pelo mar adentro
até à borda do poema que respiro e encaminho.

urge a costa branca bordada de azuis e nuvens.
e uma mão cheia das comuns pedras e estranhas.
tudo isto, é claro, por ainda não estares aqui.

quando chegares vai bastar-me a cadência 
no afagar da costa no desenrolar marítimo:
enquadramento das águas que iremos descobrir.
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maria toscano.
Coimbra, (C)asa verde, 28-29 Abril/ 2012
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domingo, abril 29, 2012

"ente o meu tu e o teu eu..." — soneto.

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entre o meu tu e o teu eu sente meus seios
adiantam-se as minhas generosas ancas
avultadas, a coragem e a partilha
também assumem interstícios risíveis

já que entre o teu tu e o meu eu já nada cabe
por nenhum ser o espaço vital descuidado.
mas, tratando-se de um testemunho poético,
posso inventar alguns gestos atrevidos

a imaginada valsa que me oferecerás um dia
o desejado tango que, um dia, te roçarei
mais as rotações sambadas as rolling song

mais as emoções roladas as a rolling stone.
na quadratura do círculo, fórmula nossa,
entre o eu e o tu sobrevive o nós.
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maria toscano.
Coimbra, (C)Asa Verde, 28-29 Abril/ 2012.
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sábado, abril 28, 2012

"dizer a verdade em cada sílaba molhada" — soneto


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dizer a verdade em cada sílaba molhada
agasalhada pelas salivas que me dás.
dizer a verdade toda a pouco e pouco
em cada recanto do corpo por onde avanço

por onde avanças e avançamos, suados
de tanto falar sem respirar senão verdades.
dizer e repetir, então, a tese e as ideias
os argumentos os complementos e os adversos

sintagmas situados — sem espaço tempo —
situados, os sintagmas, no verso branco
gemendo todo e inteiro a pouco e pouco

em cada reverso do corpo uno a que acedemos
em cada vocábulo da fala louca que habitamos
em plena língua a cingir-nos à mais pura verdade.
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maria toscano.
Coimbra, (C)Asa Verde, 28 Abril/ 2012.
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já de abalada? ande cá! corra a cuartina de riscas e sente-se aí no mocho (no canapé? é melhor nã, nã seja que as preguetas lhe dêem cabo da roupa).
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faz calôrê nã? é tempo dele! no cântaro hai água fresquinha! e se quiser entalar alguma coisaaaa... a asada das azeitonas está chêinha, no cesto hai bobinha e papo-secos (com essa chôriça... ou com o quêjo de cabra, iiiisso!, nessa seladêra de esmalte!);
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chegue-se à mesa! - cuidado não lhe rebole a melancia para cima dos dedos do péi... assim... - entã nã se está melhórê?
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nã, nã, agora nã vai máinada! estou a guardar-me pra logo... ora na houvera de sêri! ah! já lhe dê o chêro! pois é: alhos e coentros e um nadica de vinagrê... vem aí do alguidar de barro... sim, sã nas carnes prá cêa.
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como nã sê o que o trouxe cá, forastêro, ‘stêja nesta sulmouradia como à da sua: pode ir mirando os links ("do monte"; "olivais..."; "deste planAlto..."; estas é que são...") os montes de que gostamos; pode ir vendo os posts por data ou esprêtando as nossas etiquêtas
("portados"); ou pode ir passando os olhos só pelos mais recentes.
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ah! repare lá que por estes lados nã temos o hábito de editarê todos os dias - não é um blogue-diário, 'tá a vêri?; pensámo-lo antes como sendo uma espécie de blogue-testemunho das vozes do Sul (o de cá e os Suis todos); mas temos ainda muito qu'arengar... vamos lá chegando, n'éi? devagarê, que o sol quêma!
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